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Alegria, razão, repetição. Repetir a razão como alegria, alegria como repetição, a razão como o que permite suportar alegremente a repetição. E, no entanto, saber que o peso da existência tenderá a tornar a repetição um fardo, a alegria uma ilusão e a razão uma melancolia. Mas a lição da repetição não é exatamente mostrar que não há fardo, não mais nem menos que uma escapatória do peso da existência? Que o peso não se mede senão como medição, isto é, como a medida de uma força contra outra força? Que alegria é isto: o movimento e a medida de um jogo de forças? Que a salvação da razão é a possibilidade de ilusão, quer dizer, de aparência?

Quando o peso torna triste a medida da razão, nem sempre é possível aumentar sua força. Há limites para a alegria. Mas, pelo jogo do eterno retorno, do amor fati, também o limite não seria uma repetição – portanto, não diverso do infinito?

Suportar o limite de sua potência, pois, faz parte do jogo da repetição. Quando a alegria e a razão falham, quando não podem, quando intransitivamente não podem, isso é próprio da alegria e da razão. Que não possam tudo: apenas Deus pode tudo.

Mas Deus não morreu?

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Quantas vezes se morre e renasce por dia?

Quantas vezes se pode morrer por dia? Sem saber se se vai renascer?

Enerva-me quando solicitam minhas palavras a toque de caixa. Urgência imperativa alheia. Não, não há linguagem aqui disponível a qualquer hora. Acreditei abolir meus clichês e isso, essa crença ao menos, tem lá suas consequências. Então, se a estupidez, o extraordinário ou a banalidade dos rituais o exigem, falha-me a língua. Falha da língua: faz entrever que o trauma é uma dimensão ampla, quase lei geral, do dizer.

Quando falo, falo por raridade. Isso para não dizer de quando me faço entender. De resto, cato cacos de linguagem. Caco-fonias possíveis – possíveis em demasia…

– Alberto, traga mais um gim tônica para mim, e para a senhorita…

– Um hi-fi.

– um hi-fi, por favor.

– Então, como te dizia, há essa ironia dos espaços de associação. De alguns, ao menos. Espaços de sociabilidade nos quais não se conversa muito. Veja nosso caso: eu à beira do bar, você à beira da piscina, pontilhando como dois cactos floridos o deserto desse clube.

– Nem tão irônico, se olharmos as estampas de meu maiô e de tua camisa.

– Ou duplamente irônico. Como o mistério de um clube vazio que se mantém de pé. Quem sustenta isso tudo? Quero dizer, o vazio, o orçamento…

– Não sei. Mas alguns mistérios não servem para serem apenas vividos?

– Ou degustados.

– Ou sorvidos, como os drinks.

– Tudo muito chique, não?

– Como se viver fosse glamoroso.

– Mas não é? Quero dizer, os vazios que escolhemos criar não nos dão essa sensação de que até podemos preencher o mundo com algo realmente interessante?

– De fato. E essa gente que fica de fora nos olha como se estivéssemos num aquário.

– Sem poder entrar.

– Sem poder entrar.

– É que lhes falta etiqueta, finesse, um je-ne-sais-quoi…

– Gente pouco cordata, não?

– De fato.

– Mário Augusto.

– Sim?

– Não te parece que vivemos uma vida de luxo? Quer dizer, essa gente…

– Descanse, Wanda. Sempre resta a caridade e os convites avulsos para frequentar nossos círculos.

– Deus me livre! Melhor viver com peso na consciência.

– Melhor não tê-la.

– Melhor não tê-lo nela.

Afundado em mim, como num buraco-negro, apenas um ódio ainda figurava aqui: não o teu contorcionismo, nem teu contorcionismo retórico, e sim essa praga, quase inominável, insuportável, IM-PER-DO-Á-VEL.

Apenas teu anglicismo horroroso para me injetar algum ânimo no peito e me fazer levantar da cama.

Acordei em susto porque estávamos no meio de uma pequena crise doméstica. A ironia é que a realidade imite os sonhos.

a dança existe, mas nunca dancei. meu corpo sim. eu mesmo, jamais.

dança, ele, o corpo: já não sou. como o café forte de loreley, que desperta do fardo e tarefa de ser.

eu e lóri, esses seres da madrugada. descansando de ser.

nunca dançamos. que bom que algo dança em nós e nos seduz para o que não fomos.

nunca dançamos: só nos dissolvemos em sons moventes.

Ao fim do meu primeiro ano de mestrado, o que me fez suportar o ano final, de dedicação à minha pesquisa, foi interromper todo o processo de trabalho acadêmico para me dedicar momentaneamente à escrita poética e à minha atuação artística. Parece que estou atravessando novamente esse processo: embora meus dedos já não mais pareçam dispostos a colaborar profissionalmente ao piano, há acolhida numa escrita “literária” como exercício da distração, ou melhor, da des-tração. Des-tração que é, em parte, des-travar, mas principalmente um des-traçar. Sendo impossível desescrever, voltar ao ponto zero de uma primeira escrita, resta a tarefa de permanecer na escrita fazendo seus traços tropeçarem em seus pés. Caminhos traiçoeiros nos quais reaprendo a confiar.

Pela segunda noite seguida, sou invadido por tantos sonhos que mal suporto dormir. Há um poço, aparentemente sem fundo, de desejos vindo à tona. Há um poço desejante, mas há também um posso desejante, uma afirmação de que a angústia de desejar apenas me alerta para que eu ainda tenho nos desejos um campo possível, em aberto.

Na maré noturna, apareceste a mim, C. Desejo inexistente, impossível, imaterializável exceto pelo sonho. Dizias-me em carta (uma carta dentro de um sonho, como se dentro de uma garrafa, vindo de um tempo indefinível): te quero, mas dê-me tempo, ainda não sei que fazer do meu desejo senão te pedindo calma. Essa inquietude alegre dos amantes me apazigua. Que tenha existência onírica, isso não importa. Os sonhos tornam belas as impossibilidades, tornam digno o desejo impossível, não para perder-se no sonho, mas para não perder-se do sonho.

Amamo-nos por uma noite, C., como nunca nos seria lícito ou concedido. Não importa que tenha sido apenas um sonho e que somente em sonho isso tenha sido possível e desejado (como é o caso. Certo?). Não importa que esse desejo nunca se realize (posto que não é real. Certo?). (Enquanto escrevo, pareço sonhar, pois as certezas vão se turvando, vão se curvando ao fluxo das palavras…) Esse impossível que me assalta agora, o mesmo que me ligou impossivelmente a ti, faz-me ver que ele é um campo a ser produzido e trabalhado, e não apenas uma fatalidade imbecil contra a qual devo lutar.

A placidez diante do impossível…

Por mais que já tenhas me ouvido à exaustão, empresta-me uma vez mais a paciência para que eu te diga o que ainda não.

Tenho-me havido comigo mesmo, a sós. Tribunal de mim. Que foi feito do que eu era? Piso e repiso esta pergunta como fosse areia mole, apenas para nela me afundar sem respiro. Que história darei de mim quando chegar a hora? Qual meu testemunho?

Tantas coisas ocas, timbres foscos que mal servem a tamborilar minha angústia em algum passo menos stretto. Olho para o que há não muito fui, como o espírito que olha de sobrevoo o corpo do qual acaba de se desligar. Quem é este que se desliga? Que me desligo? E nesse estranhamento o que passou, sem solenidade nenhuma, cospe apenas a impertinência de sua inércia muda. Não adianta interrogar o corpo morto, a sombra, a ressaca: esses recuos são puras negatividades, puras negações também a quaisquer questionamentos.

Dizem não, não, não, não. Sem sequer dizerem coisa alguma.

Já vais? Não podes aguentar um pouco que seja? Que seja.

Aguardo sem saber bem por quê. Talvez como quem espera Godot. Talvez como quem espera Godot sem saber que espera. Nem que o espera.

Quando assanho, ou tento, essas minhas imagens passadas, na verdade busco álibis para os crimes que cometi e cometeram em meu nome. Gostaria de me justificar, de me usar a mim como escusa para as monstruosidades de que sou capaz. Embora apenas ocasionalmente as tenha cometido. Gostaria de ter em minhas imagens, meus reflexos borrados… gostaria de ter presenciado… não sei, ao menos que me dispensassem um interrogatório sem termo. Isso: que eu os pudesse projetar em tela ampla, desprovidos de som, imagens puras, presença pura da imagem que não precisa dizer, somente aparecer.

Espero ainda esse passado que não vem. Mas desconfio que virá como fantasma: barulhento com suas correntes, inafetável, incessante, derradeiro. Espírito puro, oco como a única história que poderei forjar: história sem memória, não por falta desta, mas por seu excesso.

Não me ouves mais. Partiste. Talvez encontres meus vestígios em teu caminho. Estes vestígios que tanto procuro. Mas, se encontrares algum, te peço: enterra-o, tira-me da vista o que quer que eu tenha deitado por aí. Aquilo que tanto espero, eu sei, não existe, mesmo que seus fragmentos estejam à espreita. Enquanto os espero, eles não vêm, e também não me assombram. E também não me deixam lembrar: pensando bem, no tribunal não saber, não ter nenhum relato a dar, ao menos pode ser algum indício de inocência…