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Category Archives: Alfinetadas

O amor é uma flor frouxa

Que brota, cresce, às vezes morre

Na fértil seara de corações trouxas

 

Somos todos trouxas, menos você

Com coração mais sagaz

Da ironia rapaz

E as pernas sempre abertas em V

 

A estultícia é aprazível a quem se lhe entrega

Disso bem sabem os espertos ferinos

Mas, da dor e da partilha alheia inquilinos,

Sequer alcançam o jogo dessa gente brega

 

Pra você da arquibancada, jogando ovo,

Vaiando, aqui proponho (resta-um) um jogo:

Palma da mão olhando

Das laterais ao centro, em pares, dedos guardando

 

Larga de ser cuzão

Amor tem regra não

Cabe muita alegria e tesão

“Quando penso na alegria voraz com que comemos galinha ao molho pardo, dou-me conta de nossa truculência. Eu, que seria incapaz de matar uma galinha, tanto gosto delas vivas mexendo o pescoço feio e procurando minhocas. Deveríamos não comê-las e ao seu sangue? Nunca. Nós somos canibais, é preciso não esquecer. E respeitar a violência que temos. E, quem sabe, não comêssemos a galinha ao molho pardo, comeríamos gente com seu sangue. Minha falta de coragem de matar uma galinha e no entanto comê-la morta me confunde, espanta-me, mas aceito. A nossa vida é truculenta: nasce-se com sangue e com sangue corta-se a união que é o cordão umbilical. E quantos morrem com sangue. É preciso acreditar no sangue como parte de nossa vida. A truculência. É amor também.”

clarice lispector: uma aprendizagem ou o livro dos prazeres 

marejados são meus dias, e também frios e salgados a curtir o difícil aprendizado da violência que me compõe. impiedade sem remédio, sem escolha, e que deveria também ser sem culpa. mas é sem cúmplice, de fato: alegria sem partilha. alegria tormentosa, como já disse deleuze, como fez cantar gesualdo. dolorosa gioia, amor fati que se ensina pela via da intromissão.

assim aparam-se, não sem custo, estas arestas que me aguçam ainda o faro para um passado tão perdido quanto hoje ofuscado. não porque fardo, mas porque – passado.

hoje, digo com estranha leveza:

passa, passa, passa. passa que não te cabe mais uma ode. mas passa e me deixa ver ao menos uma vez que o que te faz cair, não por acaso ou premeditação, mas por destino, me eleva a galáxias inauditas. “luz-balão” que não te alumiou nem fez voar. veneno, mas não a mim.

minha mensagem de fim de ano é: ocupem-se de suas roupas sujas e parem de distorcer a compreensão sobre os direitos das minorias.

 

um beijo e até a próxima.

estou na fase de não jogar pérolas aos porcos. apenas exibi-las para eles em meu colo.

a diferença entre comum e normal sempre me pareceu uma espécie de imperativo moral. um exemplo? reconhecer que é comum (ou seja, frequente) ver gente sem ter o que comer ou vestir, mas que não é normal que esta situação ocorra, e muito menos que ocorra tão comumente. o mesmo é preciso dizer a respeito do silêncio diante de situações que exigem esclarecimentos. mais especificamente, dos processos de silenciamento comandado que ferem direitos fundamentais, constitucionais ou “simplesmente” morais.

podemos pensar na ditadura brasileira (e na esperança que sentimos quando pensamos na abertura dos arquivos confidenciais, secretos e ultrassecretos…). para um ex-militar como jair bolsonaro – na verdade, uma espécie caricatural comum de militante-militar  fascista – é normal torturar. “normal”, aqui, não tem só a conotoção de normalidade, mas de banalidade: “se não tem outro jeito de tirar informações do ‘sujeito’, manda torturar, oras!”, já disse mais ou menos o deputado numa de suas épicas vociferações.

enquanto o caso da ditadura fere o direito à memória, em goiânia, por sua vez, o silêncio de paulo rowlands, maria luiza póvoa da cruz e de kleber adorno a respeito das recentes demissões em massa na orquestra sinfônica de goiânia (OSGO) dá o que pensar a respeito da corrupção das instituições públicas. não falo aqui de corrupção no sentido banalcomum do termo, corrupção de um indivíduo que aceita ser subornado, que mata por dinheiro. falo da corrupção a que uma instituição tal como a OSGO tem sido submetida. corrupção que tem significado, em anos recentes, o direito supostamente adquirido (sabe-se lá por quem e de quem) de demitir músicos que precisariam ser “disciplinados”.

em primeiro lugar, e até porque isso já deveria fazer parte do senso comum: um músico de orquestra ou de coro sinfônico é definitivamente um músico disciplinado. a ideia do artista descabelado e esquizoide não condiz com a realidade dos músicos eruditos, que são submetidos a uma séria disciplina desde o início de suas formações musicais – que costuma, aliás, começar em tenra idade , muitas vezes aos 4 ou 5 anos. assim sendo, o argumento que dá caráter “disciplinador” às demissões da osgo simplesmente não cola.

em segundo lugar: o que tem sido chamado de disciplina, na verdade, é puro abuso de poder – e aqui toco diretamente a questão da corrupção a que a osgo se submete. fomos demitidos, a maioria, porque supostamente teríamos afrontado o maestro paulo rowlands. falácia, não só pelo relato tendencioso do regente do coro a respeito do que dissemos a ele – o que foi testemunhado por todo o coro – como ainda pelo fato de maria luiza nem sequer ter ouvido a nossa versão do acontecido. paulo rowlands, sentindo-se pressionado por não saber dar informações a respeito das atribuições próprias de seu cargo na osgo, teria se sentido amedrontado. devo dizer que isso se deve à instabilidade profissional que atinge todos os cargos da osgo – e disso ele sabe bem. por isso, nada mais simples, fácil e certeiro do que enviar um relatório à direção da orquestra dizendo que coristas – incluo-me aqui – seriam uma “ameaça” ao trabalho do coro. ora, o que esteve em questão esse tempo todo não era o trabalho do coro, mas o trabalho do cara (com perdão pelo trocadilho barato), ameaça imaginária, que passou de quimera a tsuname em dois tempos. com a diferença de não haver preparação, ou tempo para defesa ou fuga.

corromper a instituição, dizendo que ela deve imprimir “disciplina” aos músicos “ameaçadores”, é o mesmo que dizer que deve ser normal expulsar músicos competentes sem diálogo, sem advertências, sem um sistema claro de regras que determinem as razões e os tipos de punição. é dizer que é normal que a gestão dos bens e dos serviços públicos seja autocrática. que é normal ficar em silêncio quando aquilo que é público é transformado em máquina privada. que é normal banalizar o silêncio. e que a banalização deve se tornar algo – banal.

(um dia alguém vai aprender a pensar com os nervos, os olhos e a pele, e não com o estômago. ou melhor, vai colocar o estômago no nível dos olhos e da pele, vai ser todo nervos.)

qualquer poesia que não seja em primeira pessoa é uma falácia. digo, isso enquanto princípio diretor.

tautologia contra a suposta neutralidade da linguagem pretendida pelo carequinha.

touché!, monsieur foucault.

não sei ando escrevendo muito (e mesmo em excesso), mas qualquer comentário que faço nas redes sociais (incluindo os blogs, que não deixam de o ser) me parece deslocado, sem necessidade…

 

de qualquer forma, escrever foge da necessidade. sempre. assim como um cão foge do próprio rabo quando o persegue.

très atinado, très inflamado, très articulado: assim foucault très escreveu. e, para os familiarizados com as liaisions do francês, soarão ecos em português: desatinado, desinflamado, desarticulado, desescreveu. pois eis, em pares, o que foucault fazia: (des)razão, resfriamento e chama, reescrita interminável e abandono da hermenêutica, (des)conjunturas. donde vem a impertinência do careca, essa impertinência sempre perigosa, maliciosa, que se esgueira, que pergunta e espera. impertinência, sobretudo, deliciosa e sugestiva.

mas o modismo político biopoderoso há de ruir os duplos, há de colocar por terra a impertinência, há de converter a figura sugestiva numa panfletária imagem denunciadora…

foucault morre não de complicações da aids, mas de propaganda.

espero diariamente por uma nova filosofia da existência, por uma arte que tome a existência, e não as agruras e augúrios do indivíduo, por “tema” (descreio também da arte de motivos, que é só uma oportunidade de apresentar um ponto de vista individual, assim como o realismo é a farsa da perspectiva). só quando morrer o sujeito, esse sintoma de doença e decadência, é que talvez haja espaço para amar a existência, digeri-la, consubstanciá-la consigo mesma. o existencialismo* sofre de indigestão. pudera: engoliu o sujeito inteiro e cru, com ossos, sangue e pele.

*basta pensar na determinação patológica dada pelo sufixo “–ismo” para ver que, no existencialismo, se trata de tudo, menos da existência.