Skip navigation

Category Archives: alter-egos

isso mesmo, verbo conjugado. mal conjugado, que afinal se trata de um imperativo.

como há anacronismos sempre, cumpre talvez um esclarecimento situado quase exatamente entre o prévio e o póstumo: ao começar o blog, não havia objetivo ou planejamento original/originário. o que continua não havendo. tratava-se somente de explicitar o que antes parecia a multiplicidade e, agora vejo claramente, trata-se apenas de mim, um único mim, mesmo com todos os ecos e alheios que pululam os escritos. estou apenas, como lygia fagundes telles em vários contos, tentando narrar acontecimentos de que não se sabe sempre o começo, o fim ou o percurso de um a outro. às vezes são como pontos sonoros, as fagulhas webernianas na sinfonia, op. 21. oboés, trompas, cordas solistas, o tecido frouxo, a trama branca de algodão artificial.

pois que não se espere naturalidade, senhores: escrevo a muito custo, inclusive ao preço de me livrar de algumas técnicas. puro exercício, sem ensaio geral ou aplausos ou vaias. às vezes, alguma alusão de encantamento ou reprovação. outras, ênfases que inclusive fazem doer na carne da língua. porque a boca, a boca também é a mão que escreve. e por isso tantos dias de dedos mudos e insatisfeitos.

mas o silêncio é ele mesmo exercício, talvez o mais difícil. e, longe de resolver esse problema, aliás, criando uma nova contradição, devo afirmar: contento-me em falhar no exercício do silêncio. o que, se não é garantidamente vitória, ao menos é sinal de que é possível. o quê?: mas é possível, e, por ora, basta.

Anúncios

e adianto desde já que me falta ainda a ausência de exclamações na tonalidade da fala que segue. e que essas barroquices destoam da tentativa. é que a minha poesia simplesmente acabou, e isso vem tarde. cresceu, espocou e ponto. não morreu, não murchou, não sumiu. acabou. e só.

mas não só a poesia.

ok, caros amigos e leitores, imaginem que sou um buddypoke. com todas as minhas características pessoais como opções disponíveis. agora imaginem que vocês podem me montar. agora imaginem que eu não vou apagar os comentários. agora montem e comentem.

é que o encantamento era seu humor mais cotidiano. mas não havia nisso sequer resquício de medianidade. um dia, para dar espaço a si mesma, estupendou-se em palavra: , mas sequer precisou da palavra que era ela mesma. ela era a palavra em estado inicial, tensa como inebriada como generosa como criança como bailarina. sentia-se pesada e volante como um círculo. é que a fatalidade era seu modo mais próprio: estar em encantamento era sua inevitabilidade.

as expressões recentemente cunhadas:

“estou na minha fase ‘sou um interessante platônico'”;
“homem-fallo” (típico “homem-bonito-de-boca-fechada”);
“estou cansado de fazer uso das minhas faculdades sexuais autônomas”.

é interessante ver como, em italiano, fallo significa tanto erro quanto falo.

heidegger, koellreutter e merleau-ponty que me ensinam sobre o silêncio; nietzsche, gil vicente e gregório de mattos e guerra, o riso; clarice lispector, o fluxo e a adivinhar; ravel e puccini, o meio-termo; schopenhauer, a quebra da hierarquia hegeliana das artes; debussy e messiaen, os timbres nas alturas e ritmos; zampronha, a linguagem possível principalmente como metalinguagem; cazarim que se ensino a se aprender e às minhas tautologias,típicas como esta: aparecer fenomenologicamente, assim com heidegger diz que a linguagem fala. mais que isso, cazarim se ensino que a tautologia não é uma redundância. ele me faço aprender que microdetalhes e macrocosmos.

a diferença entre mim e a puta é a sinceridade.

vários metros de cabelo, camiseta vermelha, sorriso alienado dirigindo-se na mesma pessoa até mim e a fala: ‘- oi, velho, eu sou de salvador. você tem seda aí?’

não, eu não tinha seda. mas acho que parecia que sim.

depois de passar por apático, patético e cafetão, nada mais interessante do que ter cara de quem carrega seda.