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Category Archives: Daily horoscope

Afundado em mim, como num buraco-negro, apenas um ódio ainda figurava aqui: não o teu contorcionismo, nem teu contorcionismo retórico, e sim essa praga, quase inominável, insuportável, IM-PER-DO-Á-VEL.

Apenas teu anglicismo horroroso para me injetar algum ânimo no peito e me fazer levantar da cama.

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Acordei em susto porque estávamos no meio de uma pequena crise doméstica. A ironia é que a realidade imite os sonhos.

Ao fim do meu primeiro ano de mestrado, o que me fez suportar o ano final, de dedicação à minha pesquisa, foi interromper todo o processo de trabalho acadêmico para me dedicar momentaneamente à escrita poética e à minha atuação artística. Parece que estou atravessando novamente esse processo: embora meus dedos já não mais pareçam dispostos a colaborar profissionalmente ao piano, há acolhida numa escrita “literária” como exercício da distração, ou melhor, da des-tração. Des-tração que é, em parte, des-travar, mas principalmente um des-traçar. Sendo impossível desescrever, voltar ao ponto zero de uma primeira escrita, resta a tarefa de permanecer na escrita fazendo seus traços tropeçarem em seus pés. Caminhos traiçoeiros nos quais reaprendo a confiar.

tantos anos acostumado aos cubos e cubículos, à falta de ventilação, à janela fechada, fazem esta sacada – ela mesma cubícula, semijaula que finge avançar para o espaço aberto da cidade ao redor – parecer um píer (ainda que para fora do oceano de inquietações que afogam por dentro do apartamento e do peito).

o que pode um corpo? o que pode o corpo que te quer diminuir a potência? o que pode teu corpo diante dele?

 

poder diminuir sua potência apenas para poder elevá-la em seguida – isso é saúde e maturidade no homem capaz.

“Quando penso na alegria voraz com que comemos galinha ao molho pardo, dou-me conta de nossa truculência. Eu, que seria incapaz de matar uma galinha, tanto gosto delas vivas mexendo o pescoço feio e procurando minhocas. Deveríamos não comê-las e ao seu sangue? Nunca. Nós somos canibais, é preciso não esquecer. E respeitar a violência que temos. E, quem sabe, não comêssemos a galinha ao molho pardo, comeríamos gente com seu sangue. Minha falta de coragem de matar uma galinha e no entanto comê-la morta me confunde, espanta-me, mas aceito. A nossa vida é truculenta: nasce-se com sangue e com sangue corta-se a união que é o cordão umbilical. E quantos morrem com sangue. É preciso acreditar no sangue como parte de nossa vida. A truculência. É amor também.”

clarice lispector: uma aprendizagem ou o livro dos prazeres 

marejados são meus dias, e também frios e salgados a curtir o difícil aprendizado da violência que me compõe. impiedade sem remédio, sem escolha, e que deveria também ser sem culpa. mas é sem cúmplice, de fato: alegria sem partilha. alegria tormentosa, como já disse deleuze, como fez cantar gesualdo. dolorosa gioia, amor fati que se ensina pela via da intromissão.

assim aparam-se, não sem custo, estas arestas que me aguçam ainda o faro para um passado tão perdido quanto hoje ofuscado. não porque fardo, mas porque – passado.

hoje, digo com estranha leveza:

passa, passa, passa. passa que não te cabe mais uma ode. mas passa e me deixa ver ao menos uma vez que o que te faz cair, não por acaso ou premeditação, mas por destino, me eleva a galáxias inauditas. “luz-balão” que não te alumiou nem fez voar. veneno, mas não a mim.

tudo tendo aquela cor monótona da língua romena que dispor de tempo para ver uma palestra parece até uma transgressão da ordem "natural" (leia-se: capitalista) das coisas.

pra que academia se eu perco 2 toneladas na consciência após cada aula bem feita de piano?

(o ensino de piano é, definitivamente, algo ainda muito cristão. a diferença é que a gente já nasce condenado e, na maior parte das vezes, confessar as fraquezas e faltas não redime, salva ou alivia.)

estou na fase de não jogar pérolas aos porcos. apenas exibi-las para eles em meu colo.

fala curta e direta de uma professora americana no live streaming do occupy wall street: “ensino para imigrantes […] muitos permanecem sem documentos [mas] luto diariamente para motivá-los e mantê-los na escola”. logo: resistir não é um ato só dos mártires, não é tarefa de um classe ou exclusividade de um grupo (revolucionários, intelectuais, militantes) – é o próprio cerne de uma existência. um novo existencialismo não deve pressupor o homem em sua individualidade. o que é, ou ao menos deve ser constitutivo da humanidade de um homem: a vida como resistência à dominação.