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Category Archives: Daily horoscope

tantos anos acostumado aos cubos e cubículos, à falta de ventilação, à janela fechada, fazem esta sacada – ela mesma cubícula, semijaula que finge avançar para o espaço aberto da cidade ao redor – parecer um píer (ainda que para fora do oceano de inquietações que afogam por dentro do apartamento e do peito).

o que pode um corpo? o que pode o corpo que te quer diminuir a potência? o que pode teu corpo diante dele?

 

poder diminuir sua potência apenas para poder elevá-la em seguida – isso é saúde e maturidade no homem capaz.

“Quando penso na alegria voraz com que comemos galinha ao molho pardo, dou-me conta de nossa truculência. Eu, que seria incapaz de matar uma galinha, tanto gosto delas vivas mexendo o pescoço feio e procurando minhocas. Deveríamos não comê-las e ao seu sangue? Nunca. Nós somos canibais, é preciso não esquecer. E respeitar a violência que temos. E, quem sabe, não comêssemos a galinha ao molho pardo, comeríamos gente com seu sangue. Minha falta de coragem de matar uma galinha e no entanto comê-la morta me confunde, espanta-me, mas aceito. A nossa vida é truculenta: nasce-se com sangue e com sangue corta-se a união que é o cordão umbilical. E quantos morrem com sangue. É preciso acreditar no sangue como parte de nossa vida. A truculência. É amor também.”

clarice lispector: uma aprendizagem ou o livro dos prazeres 

marejados são meus dias, e também frios e salgados a curtir o difícil aprendizado da violência que me compõe. impiedade sem remédio, sem escolha, e que deveria também ser sem culpa. mas é sem cúmplice, de fato: alegria sem partilha. alegria tormentosa, como já disse deleuze, como fez cantar gesualdo. dolorosa gioia, amor fati que se ensina pela via da intromissão.

assim aparam-se, não sem custo, estas arestas que me aguçam ainda o faro para um passado tão perdido quanto hoje ofuscado. não porque fardo, mas porque – passado.

hoje, digo com estranha leveza:

passa, passa, passa. passa que não te cabe mais uma ode. mas passa e me deixa ver ao menos uma vez que o que te faz cair, não por acaso ou premeditação, mas por destino, me eleva a galáxias inauditas. “luz-balão” que não te alumiou nem fez voar. veneno, mas não a mim.

tudo tendo aquela cor monótona da língua romena que dispor de tempo para ver uma palestra parece até uma transgressão da ordem "natural" (leia-se: capitalista) das coisas.

pra que academia se eu perco 2 toneladas na consciência após cada aula bem feita de piano?

(o ensino de piano é, definitivamente, algo ainda muito cristão. a diferença é que a gente já nasce condenado e, na maior parte das vezes, confessar as fraquezas e faltas não redime, salva ou alivia.)

estou na fase de não jogar pérolas aos porcos. apenas exibi-las para eles em meu colo.

fala curta e direta de uma professora americana no live streaming do occupy wall street: “ensino para imigrantes […] muitos permanecem sem documentos [mas] luto diariamente para motivá-los e mantê-los na escola”. logo: resistir não é um ato só dos mártires, não é tarefa de um classe ou exclusividade de um grupo (revolucionários, intelectuais, militantes) – é o próprio cerne de uma existência. um novo existencialismo não deve pressupor o homem em sua individualidade. o que é, ou ao menos deve ser constitutivo da humanidade de um homem: a vida como resistência à dominação.

beiro o fundamentalismo e o ativismo, mas é preciso que eu diga: não é possível assimilar qualquer discurso como ingênuo, como inofensivo, como bom. há limites: algumas forças matam, outras são extintas.

repetirei isso enquanto houver ameaças. não falo de Uma Ameaça, um Imaginário a ser desfeito. falo de discursos, de práticas, de dissolução de potências de vida. isso deve ser combatido.

e não falo da violência: o que se exerce sobre os outros não é violência, é violação. violência é a força de liberação de forças, é a entropia. a violação, ao contrário, é a força que inibe, que mata.

a única força que deve ser impedida é a da morte. morte que não é resultado de um medo conspiratório, de uma paranoia ou tagarelice de uma ou outras, ou de várias minorias: morte que tentam instalar, promover, justificar(!) com o pensamento conservador. o que, de certa forma, só prova que a morte é uma força: mas uma força fraca, que precisa se justificar para dissuadir a resistência.

eu vejo morte onde alguém faz revisionismo, onde alguém faz oportunismo, onde um discurso se torna inofensivo, onde há pretensão de neutralidade. eu vejo morte onde alguém diz: “ai, de vós! por que gritais? não vedes que vosso grito é igual ou menor ao de tantos outros? não vedes o sofrimento alheio, muito maior, muito mais importante, muito mais geral?”. onde se instala o espírito de rebanho há morte. onde um indivíduo ou um grupo tenta dizer que o ódio não é mortal, a morte reina.

contra a morte, atletismo: criação de amor, violência (somente no sentido de força de liberação de forças) contra o que quer violar (violação e violência são incompatíveis), simplesmente resistir à mornidão, com gelidez ou torridez, elocubrar, descentralizar, desestabilizar o que quer normatizar. atletismo do ser, ser são, ser tão, ser outro. alteridade pura.

ser bom é ser são.

não sei ando escrevendo muito (e mesmo em excesso), mas qualquer comentário que faço nas redes sociais (incluindo os blogs, que não deixam de o ser) me parece deslocado, sem necessidade…

 

de qualquer forma, escrever foge da necessidade. sempre. assim como um cão foge do próprio rabo quando o persegue.

deságuo outubro.