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Category Archives: deleuzianas

há uma forma difícil de temporalidade, que é a do passado* que retorna invertendo papéis, subvertendo relações, e diante do qual é possível agir de diferentes formas.

 

1) com culpa – quando compreendemos erroneamente o retorno como quitação de dívida, como karma, como responsabilidade, como necessidade de resolução de algo que supostamente não foi encerrado;

2) com ironia – debochando do retorno, desviando de compreendê-lo e amá-lo, desprezando-o como oportunidade de reconciliação;

3) com narcisismo e autoengano – projetando-nos no retorno deformadamente, olhando-nos em espelhos d’água que vibram à menor mirada e que nos dão a imagem turva de não termos sido aquilo que retorna;

4) com alegria – acatando sua presença como possibilidade de exercício de saúde, de aumento de potência e de intensidade, de conhecimento das profundezas das perspectivas alheias, de ascensão.

 

como doem, como ferem essas reações! como fazem adoecer, padecer a carne e o espírito!… porém, somente a ingenuidade da última é que anestesia e regenera. somente ela, a mais difícil, convalesce.

 

 

 

 

*falo do passado existencialmente suportável, não o passado hediondo ou que assuma a forma, qualquer que seja, de uma hybris: diante de um retorno como esse, talvez não seja possível a aceitação livre do amor fati, talvez o tempo esteja condenado ao ressentimento, ao trauma – eis um possível limite existencial que não devemos pensar como transponível, esse que é a experiência do tempo inelutável.

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“Quando penso na alegria voraz com que comemos galinha ao molho pardo, dou-me conta de nossa truculência. Eu, que seria incapaz de matar uma galinha, tanto gosto delas vivas mexendo o pescoço feio e procurando minhocas. Deveríamos não comê-las e ao seu sangue? Nunca. Nós somos canibais, é preciso não esquecer. E respeitar a violência que temos. E, quem sabe, não comêssemos a galinha ao molho pardo, comeríamos gente com seu sangue. Minha falta de coragem de matar uma galinha e no entanto comê-la morta me confunde, espanta-me, mas aceito. A nossa vida é truculenta: nasce-se com sangue e com sangue corta-se a união que é o cordão umbilical. E quantos morrem com sangue. É preciso acreditar no sangue como parte de nossa vida. A truculência. É amor também.”

clarice lispector: uma aprendizagem ou o livro dos prazeres 

marejados são meus dias, e também frios e salgados a curtir o difícil aprendizado da violência que me compõe. impiedade sem remédio, sem escolha, e que deveria também ser sem culpa. mas é sem cúmplice, de fato: alegria sem partilha. alegria tormentosa, como já disse deleuze, como fez cantar gesualdo. dolorosa gioia, amor fati que se ensina pela via da intromissão.

assim aparam-se, não sem custo, estas arestas que me aguçam ainda o faro para um passado tão perdido quanto hoje ofuscado. não porque fardo, mas porque – passado.

hoje, digo com estranha leveza:

passa, passa, passa. passa que não te cabe mais uma ode. mas passa e me deixa ver ao menos uma vez que o que te faz cair, não por acaso ou premeditação, mas por destino, me eleva a galáxias inauditas. “luz-balão” que não te alumiou nem fez voar. veneno, mas não a mim.

por uma História alegre, mesmo que sem reconciliação, mesmo com tantas lacunas das palavras passíveis de emergirem e as circularidades infinitas de mil cascavéis engolindo-se pelos próprios guizos, mesmo com as errâncias, com os projetos inconclusos – que, não me iludo, permanecem em andamento até que um dia a paz nos assente. alegria, alegria!, mesmo que não seja possível o contentamento, a satisfação. alegria!, alegria sobretudo: alegria para suportar o que, do passado, nos dá possibilidade de porvir.

 

(alegria ignora, aliás, passado, presente e futuro. alegria atravessa o plano da existência em direção ao infinito. é, por isso, horizonte puro, possibilidade de ser mais que subsistência e reminiscência. alegria elocubra as neuroses – e, justamente por isso, é o maior dos riscos.)

primeiro foi a crença em deus. depois, na gramática. quando pensávamos que o último resquício de teleologia estava na subjetivdade transcendental da fenomenologia, eis que aparece ela, a promessa de liberação, de ateísmo, de razão, enfim, poder, inteiramente comprometida – a linguagem, a necessidade de que a linguagem tenha significado, a crença e a necessidade da crença numa subjacência que aglutine seus pedacinhos num globo translúcido de cristal, tão fantasioso e falsamente real quanto um bibelô simulando um cenário natalino.

 

se a linguagem significar – ai de nós!

a cada cessação nossa, o devir reduz-se à velocidade da formação de estalactites. lentidão que prolonga a alegria, mas também abre fendas no tempo, grades de arame esburacadas, farpadas, que não ousamos ultrapassar e que nos assaltam com seus-nossos tédios-melancolias.

 

é preciso perder a espera. é preciso outro afeto, mais elevado, de potência maior, que seja um exercício-forma da alegria: gratidão.

minhas lembranças, trato-as como vitrais, com o esmero com que preservamos as amálgamas delicadas de nossas existências pregressas. predominam sempre as translúcidas plaquetas verdes, azuis e róseas, que são, mantendo seu caráter de transparência, aquelas que mais podem vitrificar cálidas e alegremente frias as lembranças que me alentam. isto me aquece, ma non troppo – eis o sucesso.

 

mas as tuas lembranças, sobretudo a forma de persistência do passado (é uma presença entrecruzada com outras presença?, é uma sequela?, é um signo?, é um acidente, um recalque ou um labor?), como poderia eu, tão acostumado a mim, tão ingenuamente (talvez convenientemente) crente na minha estrita(?) separação entre desejo (presente) e amor (extratemporal), como poderia eu admitir o aldilà que é direito teu (caso ele exista. pois também é direito não velar e zelar memórias privadas, memórias de dois, familiares – depois disso, o trabalho é da comissão da verdade)? e é uma pergunta provocativa, difícil, pois, a mim, exige uma nova metodologia em relação ao passado que não é meu, e que talvez não me toque. mas que eu poderia sentir, que está implícito, e que, de uma forma ou outra, molda a minha presença e o meu presente.

 

está tudo fora de hora e de ordem. agora é tempo de ser presença e presente. é tempo dessa vivacidade fugaz, dessa inquietação, do prazer matinal, da alegria inquieta e dançarina de uma simples – presença. talvez (mais uma dentre várias inquietações e dúvidas) seja esse tom de alegria que deva pautar também o porvir. talvez só haverá porvir enquanto alegria, pois a tristeza não só é peso e caída (existencialistas) ou diminuição de nossa potência (spinoza-nietzsche-deleuze), não é apenas uma verticalidade oceânica. ela, assim como a a alegria, também se desdobra num horizonte, com os lados e a ilusão de profundidade característicos de toda disposição horizontal. mas, diferentemente da alegria, a tristeza é cessação de movimento, de futuro, poça rasa incapaz mesmo dessa ilusão.

 

alegria é, voltemos a ela, o que torna tudo possível. os existencialistas estavam errados, graças a deus. mas podemos agora pedir a conta, ir para casa e dormir em paz? jamais: a alegria exige disciplina, porque não é um afeto, mas uma prática.

 

hoje fiz este exercício para ti. para vós. para o mundo. para mim. e, sobretudo, para ninguém. fiz esse exercício de alegria que é a gratidão absoluta, instransitiva. que é a luz que projeto e atravessa os cristais de memória que velo.

 

eles, na verdade, não me aquecem. eu que me aqueço para suportar com alegria sua permanência louca, improvável e recorrente.

“Mas há períodos em que o escravo livre não tem estatuto social, ele está fora de tudo. Deve ter sido assim para a geração dos negros na América com a abolição da escravidão. Quando houve a abolição ou então na Rússia, não tinham previsto um estatuto social para eles e foram excluídos. Interpretam erroneamente como se eles quisessem voltar a ser escravos! Eles não tinham estatuto. É neste momento que nasce o grande lamento. Mas não é pela dor, é uma espécie de canto e é por isso que é uma fonte poética. Se eu não fosse filósofo e fosse mulher, eu gostaria de ter sido uma carpideira. A carpideira é uma maravilha porque o lamento cresce. É toda uma arte! Além do mais, tem um lado pérfido: não se queixe por mim, não me toque. É um pouco como as pessoas demasiadamente polidas. Pessoas querendo ser cada vez mais polidas. Não me toque! Há uma espécie de… A queixa é a mesma coisa: "não tenha pena de mim, disso cuido eu". Mas ao cuidar disso, a queixa se transforma. E voltamos à questão de algo ser grande demais para mim. A queixa é isto. Eu bem que gostaria de todas as manhãs sentir que o que vivo é grande demais para mim porque seria a alegria em seu estado mais puro. Mas deve-se ter a prudência de não exibi-la, pois há quem não goste de ver pessoas alegres. Deve-se escondê-la em um tipo de lamento. Mas este lamento não é só a alegria, também é uma inquietude louca. Efetuar uma potência, sim, mas a que preço? Será que posso morrer? Assim que se efetua uma potência, coisas simples como um pintor que aborda uma cor, surge esse temor. Ao pé da letra, afinal, acho que não estou fazendo Literatura quando digo que a forma como Van Gogh entrou na cor está mais ligada à sua loucura do que fazem supor as interpretações psicanalíticas, e que são as relações com a cor que também interferem. Alguma coisa pode se perder, é grande demais. Aí está o lamento: é grande demais para mim. Na felicidade ou na desgraça… Em geral, na desgraça. Mas isso é detalhe.” – Deleuze e Parnett, “O abecedário de Deleuze: joie [alegria]

“isso é grande demais, meu deus. é grande demais. mes ultrapassa, é muito.” (os astutos ouvem uma reclamação, mas os sãos compreendem: essa alegria é grande demais, meu deus.)

“dói, porque é grande demais. ai, meu deus!” (aqui riem-se os maliciosos. os castos, no entanto, compreendem: a liberdade é grande demais para ser hasteada em praça pública. e sabem que há um preço a se pagar por ela, mas não podem prevê-lo. por isso, é preciso disfarçar a liberdade em dor, como fernando pessoa dizia sobre o poeta: fingindo ser dor a dor que deveras.

sem revelar a causa da dor. principalmente porque isso não importa mais. a liberdade é grande demais para que eu, apátrida, me lembre de minhas origens.)

ao sujeito confessional, ao homem cujo umbigo é a via natural de relação com o universo, que é o buraco-negro para onde todos os demais universos são arrastados e dissimulados, parece uma afronta, até mesmo uma  franca crueldade compreender e amar (amor fati) que os signos: sejam, por natureza, irreversíveis; se dispersem em séries autônomas que se cruzam com outras séries a esmo; que não se pode controlar ocasionais encontros multisseriais que os núcleos subjetivos – menores que os signos que os atravessam – gostariam de vetar; não tenham origem, nem mesmo humana, mas cuja forma de existência é simplesmente atravessar as existências e os espaços.

o signo é irreversível, multidirecional e entrópico. e, além disso e mais importante que isso, é anônimo – o signo é o golpe derradeiro contra o narcisismo.

(um dia alguém vai aprender a pensar com os nervos, os olhos e a pele, e não com o estômago. ou melhor, vai colocar o estômago no nível dos olhos e da pele, vai ser todo nervos.)