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Category Archives: Diários de bordo

tantos anos acostumado aos cubos e cubículos, à falta de ventilação, à janela fechada, fazem esta sacada – ela mesma cubícula, semijaula que finge avançar para o espaço aberto da cidade ao redor – parecer um píer (ainda que para fora do oceano de inquietações que afogam por dentro do apartamento e do peito).

“quem muito se evita, se convive”

João Guimarães Rosa, “Grande Sertão: Veredas”

as imagens do que é leviano, bruto, violento, estúpido, horrível, brutal, bestial, do que ultrapassa a ordem do classificável – nessa sequência e escala – coabitam conosco. essas imagens, não apenas por serem o que são (imagens), mas pelo modo desenfreado como são, nos atravessam sem que possamos segurá-las, canalizá-las. o enfrentamento desse impalpável bestiário contemporâneo que faz de um monstro um mito (e pouco, aliás, deveria nos surpreender a proximidade ontológica entre os dois) exige pois um contraimaginário que nem sequer conseguimos estabelecer.

nos debatemos, impotentes (porque provavelmente esta seja uma falsa questão), diante do fato de que nossas gerações não conviveram com os horrores da ditadura, do nazismo, do fascismo, do escravismo, da dominação sobre as mulheres, da sociedade disciplinar. a questão não é, em rigor, falsa; mas a falseamos quando levantamos os ícones passados como respostas efetivas à persistência do mal, essa sempre presente. não me parece, pois, que estamos diante de um retorno do passado stricto sensu, mas da continuação de uma história que não passou e não cessa de permanecer. mas os ícones passados, as respostas simbólicas e políticas que conseguiram um dia resistir e derrubar, mesmo que provisoriamente (eis a triste constatação), o aberrante – os ícones passados são monumentos que não mais podemos reativar com expectativa de efetividade.

enquanto chico buarque seguir sendo o herói do presente, estaremos fadados ao fracasso. num mundo em que certas imagens têm uma intolerável ainda que sustentável leveza de ser, a história exige de nós a compreensão do que é líquido e aéreo: contra a resiliência da desrazão diante de todos os argumentos, será preciso armar-se do imaterial e do que, num sentido diferente, não opera no registro do racional.

contra a atual crueza do abominável, da hybris que se instala insensivelmente entre nós e em nós, outro logos é preciso. partindo da razão, mas estirando-se para além dela e para longe das experiências bem sucedidas do passado. numa sociedade em que os únicos símbolos potentes são os do mito aniquilador, é preciso sair do nomadismo coletor e passar ao cultivo do futuro.

no entanto, aqueles que se perdem na acumulação e com a iconofilia do passado, cuja densa materialidade já não mais pode nos salvar, apenas ignoram que as presentes gerações trabalham com a leviandade que lhes é particular. o passado, se apropriado, só será efetivo quando passar a operar no registro do presente. (e essa não é uma demanda ou preciosismo de historiador, que não sou. isso é um limite ontológico de nosso tempo que, não reconhecido, não cessará de nos colocar em convívio com a monstruosidade.)

 

“Quando penso na alegria voraz com que comemos galinha ao molho pardo, dou-me conta de nossa truculência. Eu, que seria incapaz de matar uma galinha, tanto gosto delas vivas mexendo o pescoço feio e procurando minhocas. Deveríamos não comê-las e ao seu sangue? Nunca. Nós somos canibais, é preciso não esquecer. E respeitar a violência que temos. E, quem sabe, não comêssemos a galinha ao molho pardo, comeríamos gente com seu sangue. Minha falta de coragem de matar uma galinha e no entanto comê-la morta me confunde, espanta-me, mas aceito. A nossa vida é truculenta: nasce-se com sangue e com sangue corta-se a união que é o cordão umbilical. E quantos morrem com sangue. É preciso acreditar no sangue como parte de nossa vida. A truculência. É amor também.”

clarice lispector: uma aprendizagem ou o livro dos prazeres 

marejados são meus dias, e também frios e salgados a curtir o difícil aprendizado da violência que me compõe. impiedade sem remédio, sem escolha, e que deveria também ser sem culpa. mas é sem cúmplice, de fato: alegria sem partilha. alegria tormentosa, como já disse deleuze, como fez cantar gesualdo. dolorosa gioia, amor fati que se ensina pela via da intromissão.

assim aparam-se, não sem custo, estas arestas que me aguçam ainda o faro para um passado tão perdido quanto hoje ofuscado. não porque fardo, mas porque – passado.

hoje, digo com estranha leveza:

passa, passa, passa. passa que não te cabe mais uma ode. mas passa e me deixa ver ao menos uma vez que o que te faz cair, não por acaso ou premeditação, mas por destino, me eleva a galáxias inauditas. “luz-balão” que não te alumiou nem fez voar. veneno, mas não a mim.

deu saudade das mesas cheias de risadas e cervejas baratas das viradas de ano, especialmente de 2007 pra 2008. goiânia encareceu demais os encontros e eu enveredei demais pelos desencontros (até de mim).

 

(eu tenderia a dizer que as coisas já estão assim, que eu não devo me arrepender de como as coisas vieram a calhar, que o presente é tal qual o vejo e não há como remediá-lo. mas nem tudo é fatalidade. inclusive este amolecimento que me faz sentir arrependido por ter me desvinculado ou, no mínimo, me deixado isolar. não é fatalidade, mas me permito amolecer, que talvez seja o remédio para não sei bem o quê…

(é que hoje é daqueles dias de meio inverno típicos do brasil. é dia de cedências, da pieguice que nos mantêm minimamente sãos em tempos em que nossos pensamentos simplesmente nos escapam. tempos em que, na falta de atravessamentos, nos aquietamos para não ter que enfrentar o ruído frenético de nossas solidões diária e morbidamente maquiadas.))

a diferença entre comum e normal sempre me pareceu uma espécie de imperativo moral. um exemplo? reconhecer que é comum (ou seja, frequente) ver gente sem ter o que comer ou vestir, mas que não é normal que esta situação ocorra, e muito menos que ocorra tão comumente. o mesmo é preciso dizer a respeito do silêncio diante de situações que exigem esclarecimentos. mais especificamente, dos processos de silenciamento comandado que ferem direitos fundamentais, constitucionais ou “simplesmente” morais.

podemos pensar na ditadura brasileira (e na esperança que sentimos quando pensamos na abertura dos arquivos confidenciais, secretos e ultrassecretos…). para um ex-militar como jair bolsonaro – na verdade, uma espécie caricatural comum de militante-militar  fascista – é normal torturar. “normal”, aqui, não tem só a conotoção de normalidade, mas de banalidade: “se não tem outro jeito de tirar informações do ‘sujeito’, manda torturar, oras!”, já disse mais ou menos o deputado numa de suas épicas vociferações.

enquanto o caso da ditadura fere o direito à memória, em goiânia, por sua vez, o silêncio de paulo rowlands, maria luiza póvoa da cruz e de kleber adorno a respeito das recentes demissões em massa na orquestra sinfônica de goiânia (OSGO) dá o que pensar a respeito da corrupção das instituições públicas. não falo aqui de corrupção no sentido banalcomum do termo, corrupção de um indivíduo que aceita ser subornado, que mata por dinheiro. falo da corrupção a que uma instituição tal como a OSGO tem sido submetida. corrupção que tem significado, em anos recentes, o direito supostamente adquirido (sabe-se lá por quem e de quem) de demitir músicos que precisariam ser “disciplinados”.

em primeiro lugar, e até porque isso já deveria fazer parte do senso comum: um músico de orquestra ou de coro sinfônico é definitivamente um músico disciplinado. a ideia do artista descabelado e esquizoide não condiz com a realidade dos músicos eruditos, que são submetidos a uma séria disciplina desde o início de suas formações musicais – que costuma, aliás, começar em tenra idade , muitas vezes aos 4 ou 5 anos. assim sendo, o argumento que dá caráter “disciplinador” às demissões da osgo simplesmente não cola.

em segundo lugar: o que tem sido chamado de disciplina, na verdade, é puro abuso de poder – e aqui toco diretamente a questão da corrupção a que a osgo se submete. fomos demitidos, a maioria, porque supostamente teríamos afrontado o maestro paulo rowlands. falácia, não só pelo relato tendencioso do regente do coro a respeito do que dissemos a ele – o que foi testemunhado por todo o coro – como ainda pelo fato de maria luiza nem sequer ter ouvido a nossa versão do acontecido. paulo rowlands, sentindo-se pressionado por não saber dar informações a respeito das atribuições próprias de seu cargo na osgo, teria se sentido amedrontado. devo dizer que isso se deve à instabilidade profissional que atinge todos os cargos da osgo – e disso ele sabe bem. por isso, nada mais simples, fácil e certeiro do que enviar um relatório à direção da orquestra dizendo que coristas – incluo-me aqui – seriam uma “ameaça” ao trabalho do coro. ora, o que esteve em questão esse tempo todo não era o trabalho do coro, mas o trabalho do cara (com perdão pelo trocadilho barato), ameaça imaginária, que passou de quimera a tsuname em dois tempos. com a diferença de não haver preparação, ou tempo para defesa ou fuga.

corromper a instituição, dizendo que ela deve imprimir “disciplina” aos músicos “ameaçadores”, é o mesmo que dizer que deve ser normal expulsar músicos competentes sem diálogo, sem advertências, sem um sistema claro de regras que determinem as razões e os tipos de punição. é dizer que é normal que a gestão dos bens e dos serviços públicos seja autocrática. que é normal ficar em silêncio quando aquilo que é público é transformado em máquina privada. que é normal banalizar o silêncio. e que a banalização deve se tornar algo – banal.

[prefácio

 

estes dias, ápice de minha produção acadêmica até então, têm-me feito lembrar de um exemplo dado por uma professora de biologia do segundo grau (professora que sempre detestei, mas o exemplo é imagético o bastante para ser citado): certas árvores, como algumas laranjeiras, quando estão por morrer, danam a produzir frutos. e hoje cedo, após ontem, após um longo ontem que foi a chegada da viagem a ribeirão preto no dia 10, é como se a última laranja tivesse se espatifado no chão seco, árido, laranja besta que espera semear o chão insípido, impróprio, laranja impertinentemente doce e esperançosa. (e aqui não se trata de recusar a esperança ou o que me é deserto e cerrado, mas de confiar no impasse de não saber se brotará algo ou se a laraja se espatifa em vão. confio no impasse, sei que ele não é aniquilamento, só é um nó que, independente de ser desfeito, me põe adiante neste momento.)

 

estes dias, ápice de minha produção acadêmica, têm-se resumido a: resumir. curiosamente o resumo é a mais poderosa ferramenta argumentativa da minha dissertação. e estranhamente o que é resumo vira argumento, e vira criação, e deixa de ser resumo.

 

esse procedimento todo torto é o contraponto e o espelho daquilo que estou resumindo: como a história da música é uma história do espaço, das linhas, retas, planos, superfícies. uma história cujo inventário malfeito parece uma lenta progressão, progressista ou circular, das formas, das técnicas, do surgimento de gênios e do soterramento paulatino de compositores ditos menores. a história da música é uma grande topografia, de fato, mas é igualmente uma topologia extremamente capenga de como uma determinada figura conhecida como tradição musical ocidental teria se constituído ao longo de um lapso de tempo mais ou menos determinável.

 

sendo assim, a desterritorialização que opero nos resumos é paralela à desterritorialização que tento operar nessa historiografia ou (como prefiro pensar) topografia, já traçada, assente, tão consciente de si que não pode se converter senão em si mesma, mas não no sentido da eterna repetição que foucault reconhece na linguagem moderna; no sentido, antes, da eterna repetição do que não foi dito, no desvio daquilo que não é trazido à tona, mas eternamente soterrado pelo excesso de repetição e de palavras. freud, ricœur e nietzsche chamam isso de recalque. hoje em dia, chamo simplesmente (e estrategicamente) de incompetência ou impertinência arqueológica. por isso a necessidade de desterritorializar: parar com o soterramento, tornando o resumo dessa topografia uma topologia (que faz o resumo deixar de ser resumo).

 

(e me dá um certo alívio poder, aqui, escrever isso, uma certa angústia que não deixa de soar, mas já não me ensurdece; ao contrário, porque soa menos é que posso, enfim, escutá-la novamente. a angústia, sim, tem seu limite de audibilidade: nem mais, nem menos. e também me alivia, estranhamente, poder contar com a linguagem para não querer dizer nada, mas simplesmente desabafar, no sentido quase literal de tirar do abafamento, menos do que de confessar. essa linguagem, como foucault bem fala dos quadros de klee, que não quer dizer nada, que não tem compromisso com a significação, que mata kafka.)

 

mas, para dar tempo a essa laranja esbugalhada, a essas tentativas desesperadamente esperançosas, é necessário voltar-me a outras coisas, menos sutis, menos diáfanas, menos voláteis e volúveis. por isso, segue o que segue. (uma tautologia é sempre um alívio, especialmente nestes dias em que me deparo o tempo todo com o fato de que o óbvio não é assim tão óbvio. a tautologia previne o paradoxo, e disso não se deve pensar que se trata de uma resistência ao pensar; ao contrário, é às vezes uma ousadia.)]

 

dos facebookers (homens) micareteiros descamisados

 

é preciso tanto desapego, excesso ou umbigo de si mesmo, que subitamente eles me causam interesse, me despertam a atenção para outro tipo de pretensão, que não é impotente, que não é uma ruminação interminável de conceitos. o corpo exposto é, às vezes, o que mais se aproxima da imagem do círculo. resta saber – e a questão ficará aberta, pois não tenho o mínimo interesse em responder – se se trata, de minha parte, de um fascínio invejoso de quem não pode ter essa experiência do círculo umbilical, ou se este tipo de exposição e a potência que ela indica não são limitadas a uma simples exposição (se ela é superficial num sentido pejorativo).

 

ou então – teceira hipótese, com certa dose de esperança – se tudo isso está malposto e o que está em jogo é outra coisa…

do sentido do suicídio

ontem me dei conta de como a relação entre valoração (sentido, portanto) e suicídio é gritante. mas, pela primeira vez, consegui sair do impasse entre uma análise puramente externa e uma estritamente ostracista. explico-me.

nos meus devaneios, cheguei a pensar corretamente que somente a alegria é que pode valorar verdadeiramente. influência forte de nietzsche, a partir de quem cheguei à conclusão de que alegria é o oposto tanto de melancolia quanto de contenteza, mas nem sempre de tristeza. parece mera diferença terminológica, e, mais especificamente, diferenças terminológicas psicanalíticas, mas isso não é o foco do meu interesse. a diferença é que a alegria é o desvício, se se quiser, mais simplesmente, força alegre, vida, e, por isso, somente por isso, se diferencia da contenteza e pode existir concomitantemente à tristeza – mas nunca na melancolia. posto isso, devo dizer que me esqueci de um trecho importante de além de bem e mal em que nietzsche diz aproximadamente que o escravo também quer dominar. a fraqueza quer se assenhorar. este pensamento fundamental, desprovido das consequências absurdas e, por que não dizer, nesfastas de outrora, este pensamento eu mantenho.

para sair do impasse entre o “o suicida se mata porque quer chamar a atenção alheia” (que implicitamente aponta para uma plateia, ou seja, sociedade ou comunidade ou grupo – enfim, outrem) e o “o suicida se mata para aliviar a própria dor” (perspectiva individualista, umbigal), recorro leve e livremente à tese freudiana do trabalho de luto. o suicídio não pode ser considerado como um recalque – ainda que todos os recalques possam ser suficientes para levar alguém ao suicídio. o suicídio rompe, o que já o diferenciaria de um recalque, mas, mais importante, o suicida vê no suicídio efetivo uma possibilidade de encerrar a falta de sentido do sofrimento. o que, por si, já valora o sentido que o sofrimento deve ter, ou ao menos determina que o sofrimento deve acabar se não tem sentido. o suicídio é o sepultamento do sofrimento vão. como toda sepultura, o suicídio traz a marca do jazigo, ou seja, do sinal da morte que deve ser visto. o velório é o período em que ainda se pode olhar para o morto para reconhecer nele mesmo a morte presente, viva em sua carne. depois, não se tem mais acesso ao corpo, não só porque ele apodrece (ainda que não se possa descartar esse fato como menor), mas porque, para quem permanece vivo, não basta só enterrar o morto, mas também enterrar o passado. enterrar significa, assim, mais que depositar os restos de um corpo: enterrar é trazer a marca da morte à vista de quem quiser vê-la; ao mesmo, é assentar a morte em seu devido lugar, que não é o centro da vida plena e das ocupações corriqueiras. com isso, o suicídio é um trabalho de luto marcado pelo desejo fraco, o desejo de morte. o suicida enterra o próprio passado insuportável e o põe ele próprio à vista de todos. ele inverte e subverte o trabalho de luto em seu aspecto mais alegre: a superação da temporalidade traumatizada. o fluxo de promessa que é a característica do futuro, do porvir, do devir, isso é posto em dúvida com a morte de outrem. ao menos do ponto de vista dos sobreviventes que superam o trauma. para o suicida, porém, toda a vida pregressa é pura temporalidade traumatizada. o suicídio lampeja, assim, como superação. o suicídio é o enterramento sem velório, porque o que o suicida enterra, igualado ao seu ser total, é a dor insuportável, e, sendo insuportável, ele não pode olhar para ela morta, primeiro porque não suporta mais, segundo porque ela não morreu nem acena morrer.

o que para mim é promessa, para ele é dúvida; o que para ele é certeza, para mim é absurdo.

permaneço no terreno movediço dessa ambiguidades que, quando conjugadas, permanecem e se tornam ainda mais ambíguas. donde a compreensão, muitas vezes, não se reduz ao acordo.

sempre se preocupe se se pedir um crepe suíço, com presunto, em piracanjuba.

o título post de um blog alemão visitado aleatoriamente me fez escrever a lista de coisas que eu descobri, em maio, serem fundamentais: que a perspectiva vem antes da relação, a trabalhar menos, comer menos, dormir mais, estudar mais, ler menos, gastar menos, organizar-me diferentemente, dar espaço ao sentimento da transcendência e algo que eu poderia chamar de “fidelidade partidária”, o que não tem a ver com ideologias, no entanto, e, o mais importante, dar vazão à minha solidão, o que nem de longe esbarra no solipsismo (confesso: “solipsismo” é uma das palavras mais legais que já aprendi). nem tão produtivo[?], so mein Mai war.