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Category Archives: ecce homo

Afundado em mim, como num buraco-negro, apenas um ódio ainda figurava aqui: não o teu contorcionismo, nem teu contorcionismo retórico, e sim essa praga, quase inominável, insuportável, IM-PER-DO-Á-VEL.

Apenas teu anglicismo horroroso para me injetar algum ânimo no peito e me fazer levantar da cama.

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a dança existe, mas nunca dancei. meu corpo sim. eu mesmo, jamais.

dança, ele, o corpo: já não sou. como o café forte de loreley, que desperta do fardo e tarefa de ser.

eu e lóri, esses seres da madrugada. descansando de ser.

nunca dançamos. que bom que algo dança em nós e nos seduz para o que não fomos.

nunca dançamos: só nos dissolvemos em sons moventes.

Ao fim do meu primeiro ano de mestrado, o que me fez suportar o ano final, de dedicação à minha pesquisa, foi interromper todo o processo de trabalho acadêmico para me dedicar momentaneamente à escrita poética e à minha atuação artística. Parece que estou atravessando novamente esse processo: embora meus dedos já não mais pareçam dispostos a colaborar profissionalmente ao piano, há acolhida numa escrita “literária” como exercício da distração, ou melhor, da des-tração. Des-tração que é, em parte, des-travar, mas principalmente um des-traçar. Sendo impossível desescrever, voltar ao ponto zero de uma primeira escrita, resta a tarefa de permanecer na escrita fazendo seus traços tropeçarem em seus pés. Caminhos traiçoeiros nos quais reaprendo a confiar.

Por mais que já tenhas me ouvido à exaustão, empresta-me uma vez mais a paciência para que eu te diga o que ainda não.

Tenho-me havido comigo mesmo, a sós. Tribunal de mim. Que foi feito do que eu era? Piso e repiso esta pergunta como fosse areia mole, apenas para nela me afundar sem respiro. Que história darei de mim quando chegar a hora? Qual meu testemunho?

Tantas coisas ocas, timbres foscos que mal servem a tamborilar minha angústia em algum passo menos stretto. Olho para o que há não muito fui, como o espírito que olha de sobrevoo o corpo do qual acaba de se desligar. Quem é este que se desliga? Que me desligo? E nesse estranhamento o que passou, sem solenidade nenhuma, cospe apenas a impertinência de sua inércia muda. Não adianta interrogar o corpo morto, a sombra, a ressaca: esses recuos são puras negatividades, puras negações também a quaisquer questionamentos.

Dizem não, não, não, não. Sem sequer dizerem coisa alguma.

Já vais? Não podes aguentar um pouco que seja? Que seja.

Aguardo sem saber bem por quê. Talvez como quem espera Godot. Talvez como quem espera Godot sem saber que espera. Nem que o espera.

Quando assanho, ou tento, essas minhas imagens passadas, na verdade busco álibis para os crimes que cometi e cometeram em meu nome. Gostaria de me justificar, de me usar a mim como escusa para as monstruosidades de que sou capaz. Embora apenas ocasionalmente as tenha cometido. Gostaria de ter em minhas imagens, meus reflexos borrados… gostaria de ter presenciado… não sei, ao menos que me dispensassem um interrogatório sem termo. Isso: que eu os pudesse projetar em tela ampla, desprovidos de som, imagens puras, presença pura da imagem que não precisa dizer, somente aparecer.

Espero ainda esse passado que não vem. Mas desconfio que virá como fantasma: barulhento com suas correntes, inafetável, incessante, derradeiro. Espírito puro, oco como a única história que poderei forjar: história sem memória, não por falta desta, mas por seu excesso.

Não me ouves mais. Partiste. Talvez encontres meus vestígios em teu caminho. Estes vestígios que tanto procuro. Mas, se encontrares algum, te peço: enterra-o, tira-me da vista o que quer que eu tenha deitado por aí. Aquilo que tanto espero, eu sei, não existe, mesmo que seus fragmentos estejam à espreita. Enquanto os espero, eles não vêm, e também não me assombram. E também não me deixam lembrar: pensando bem, no tribunal não saber, não ter nenhum relato a dar, ao menos pode ser algum indício de inocência…

, pois há dias, Roberto, em que o peso pesa, em que não é possível um disfarce ou amenidade qualquer, por exemplo, um sorriso protocolar. Em alguns deles, escrevo, pois, se não me alivia esse fardo, ao menos é um jeito de segurá-lo com menor incômodo. Mas outras vezes nada resta senão padecer e esperar, não sei bem como nem o que, só padecer e esperar. Sabes bem que essa espera é física: Atlas suportou o insuportável sobre os ombros, deu seu corpo em sacrifício como rival de um Cristo. A espera é sempre aplicada sobre a carne e os ossos: é o estômago revolto, os olhos e mandíbulas apertadas, a garganta entalada. O peso não é uma metáfora psicológica, é uma sensação mesmo. Mas, sabes, Roberto, nessas horas me lembro das madrugadas enfumaçadas na tua sacada, quando eu, mais jovem e leve, apenas padecia a brisa e a calada da cidade de madrugada. Padecer esse frio e esse silêncio, incorporar esses ocos sem resistir, tantas vezes isso me falta embora seja um alento. Quando os cigarros escasseavam e as garrafas secavam, quando já estávamos embriagados de sono, nicotina e álcool o bastante para insistir em nossos dramas menores, a noite ocupava aquele espaço estreito, não da tua antiga sacada, mas de nossos peitos, e nos convocava a escutar o assovio do vento frio a passar entre as frestas apertadas de dentro. Esse assovio frio, meio fantasmagórico, embora pouco aliviasse, nos sacudia e lembrava o quanto de vida ainda havia por descobrir e plantar. Nessas horas, Roberto, eu me transportava para longe estando ali ao teu lado e ao de outros, e nesses instantes alguma coisa se passava que até hoje continua a passar aqui. Quando o peso de existir, como é o caso de agora, se torna tão insuportável e me esgana, eu assovio por dentro aquelas brisas, mimetizando um espaço-tempo que não volta, mas que também nunca se foi. Mesmo sabendo ser vã a estratégia, o som sombrio daquele tempo de algum modo me conforta o corpo. Talvez porque me abrace esse lado soturno, ou porque, ao menos, lembre que meu corpo ainda pode alguma voz mesmo quando não consiga falar.

não aquela elogiada por erasmo e machado de assis, não a romantizada por nietzsche e foucault, também não a “charmosa” de deleuze, muito menos aquela cantada por raul seixas.

 

somente essa loucura que é uma ameaça real de atravessarmos o limite da vida e da inteligibilidade, da possibilidade de vínculo com a existência e a linguagem, aquela da qual talvez não se possa retornar, o signo fatal, derradeiro, que nenhuma ironia poderia reverter.

 

existe essa loucura como extrema fragilidade que às vezes não quer se converter em razão, que não quer convencer, que só quer repousar e se aninhar. essa loucura às vezes silente, às vezes espetaculosa, às vezes dissimulada na linguagem mais ordeira e transparente, outras vezes cifrada – mas que deseja apenas apaziguar a si mesma.

 

dessa experiência, o que restaria a laudar? visto que é pó e só.

 

não cantem, não louvem, não poetizem, sequer decretem luto. apenas escutem a voz e o momento que anunciam o que a razão ordinária jamais poderá amar.

 

escutem, escutem: é tudo o que se pede agora. sim, não há promessa de verbo nem de regresso desse estado de plasma. mas escutem, escutem, sem fazer perguntas.

há uma forma difícil de temporalidade, que é a do passado* que retorna invertendo papéis, subvertendo relações, e diante do qual é possível agir de diferentes formas.

 

1) com culpa – quando compreendemos erroneamente o retorno como quitação de dívida, como karma, como responsabilidade, como necessidade de resolução de algo que supostamente não foi encerrado;

2) com ironia – debochando do retorno, desviando de compreendê-lo e amá-lo, desprezando-o como oportunidade de reconciliação;

3) com narcisismo e autoengano – projetando-nos no retorno deformadamente, olhando-nos em espelhos d’água que vibram à menor mirada e que nos dão a imagem turva de não termos sido aquilo que retorna;

4) com alegria – acatando sua presença como possibilidade de exercício de saúde, de aumento de potência e de intensidade, de conhecimento das profundezas das perspectivas alheias, de ascensão.

 

como doem, como ferem essas reações! como fazem adoecer, padecer a carne e o espírito!… porém, somente a ingenuidade da última é que anestesia e regenera. somente ela, a mais difícil, convalesce.

 

 

 

 

*falo do passado existencialmente suportável, não o passado hediondo ou que assuma a forma, qualquer que seja, de uma hybris: diante de um retorno como esse, talvez não seja possível a aceitação livre do amor fati, talvez o tempo esteja condenado ao ressentimento, ao trauma – eis um possível limite existencial que não devemos pensar como transponível, esse que é a experiência do tempo inelutável.

“Quando penso na alegria voraz com que comemos galinha ao molho pardo, dou-me conta de nossa truculência. Eu, que seria incapaz de matar uma galinha, tanto gosto delas vivas mexendo o pescoço feio e procurando minhocas. Deveríamos não comê-las e ao seu sangue? Nunca. Nós somos canibais, é preciso não esquecer. E respeitar a violência que temos. E, quem sabe, não comêssemos a galinha ao molho pardo, comeríamos gente com seu sangue. Minha falta de coragem de matar uma galinha e no entanto comê-la morta me confunde, espanta-me, mas aceito. A nossa vida é truculenta: nasce-se com sangue e com sangue corta-se a união que é o cordão umbilical. E quantos morrem com sangue. É preciso acreditar no sangue como parte de nossa vida. A truculência. É amor também.”

clarice lispector: uma aprendizagem ou o livro dos prazeres 

marejados são meus dias, e também frios e salgados a curtir o difícil aprendizado da violência que me compõe. impiedade sem remédio, sem escolha, e que deveria também ser sem culpa. mas é sem cúmplice, de fato: alegria sem partilha. alegria tormentosa, como já disse deleuze, como fez cantar gesualdo. dolorosa gioia, amor fati que se ensina pela via da intromissão.

assim aparam-se, não sem custo, estas arestas que me aguçam ainda o faro para um passado tão perdido quanto hoje ofuscado. não porque fardo, mas porque – passado.

hoje, digo com estranha leveza:

passa, passa, passa. passa que não te cabe mais uma ode. mas passa e me deixa ver ao menos uma vez que o que te faz cair, não por acaso ou premeditação, mas por destino, me eleva a galáxias inauditas. “luz-balão” que não te alumiou nem fez voar. veneno, mas não a mim.

afirmar, afirmar, afirmar. repetir a afirmação apenas como resistência à fraqueza, como exercício de força contra a impotência. e, então: repetir, repetir, repetir. 

 

– até ser possível esquecer.

por ocasião de um reencontro e de novos encontros.

 

 

nós, que adultescemos sem notar, como se tivéssemos convalescido longamente. separados pelas encruzilhadas que nos aproximaram, hoje tentamos (não sabemos se em vão) recompor alguma substância possível: fumaça e cinza de incenso ou ao menos águas salgadas e frias de inverno. qualquer matéria que nos forneça rastros ou pistas da dissipação por que passamos, que desbastou nossas elevações e profundidades adolescentes ao nível médio de nossa deficiência crônica de dar sentido a qualquer porção de tempo. (bruxismo.) recompor qualquer substância que amenize as ressacas que nos assolam como piolhos de estimação – e não dizemos recalque, pois: já desistimos de definir se se trata de má fé, desconhecimento ou incompetência essa estagnação; mesmo superado o nó em que nos metemos (ou que nos meteram?, tanto faz), o que faríamos depois?

 

aprendemos a abrir mão das redenções de outrora. nossos livros, madrugadas em claro, as ressacas alcoolicas e morais que nos permitíamos e que nos constituíam positivamente, afirmativamente, os risos e dramas ingênuos em que repousavam nossas esperanças e deslumbramento, o cigarro apagado no copo com água, o perfume discreto da brisa da manhã, os amores passageiros (e amamos tanto!, e tantas vezes…)…

 

hoje erramos em perguntar-nos sobre nossas origens e nossa localização exata no mundo e em nossas próprias vidas. um pouco porque já sabemos que somos errantes e insistimos em fazer perguntas retóricas. mas também porque talvez não exista pouso para quem escolheu estar permanentemente em refúgio.

 

estamos onde estamos, sabendo que poderíamos ter estado e que poderemos estar em tantos lugares e de tantos modos. e sabendo também que não os poderemos todos.

 

então pedimos licença àqueles que não têm apetite para o nomadismo. nós talvez não consigamos nunca conter essa inquietude estranha, incômoda e sobretudo orgulhosa que rechaça toda explicação aconchegante. mas estaremos em paz com nossos pés estropiados, que, no mínimo, dão testemunho de que nossos eventuais ou aparentes fracassos foram amados e desejados por nós até suas raízes.