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Category Archives: Etimologia

por uma História alegre, mesmo que sem reconciliação, mesmo com tantas lacunas das palavras passíveis de emergirem e as circularidades infinitas de mil cascavéis engolindo-se pelos próprios guizos, mesmo com as errâncias, com os projetos inconclusos – que, não me iludo, permanecem em andamento até que um dia a paz nos assente. alegria, alegria!, mesmo que não seja possível o contentamento, a satisfação. alegria!, alegria sobretudo: alegria para suportar o que, do passado, nos dá possibilidade de porvir.

 

(alegria ignora, aliás, passado, presente e futuro. alegria atravessa o plano da existência em direção ao infinito. é, por isso, horizonte puro, possibilidade de ser mais que subsistência e reminiscência. alegria elocubra as neuroses – e, justamente por isso, é o maior dos riscos.)

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que dizer da morte além dessa incontornabilidade, dessa incongruência, da latência que essas múltiplas afecções até então inexistentes, dessa falta e dos incontáveis excessos (que nem meus são), das quebras, da impotência, da perda dos contornos, da indignação, da indignidade de seus mandatários?

essa morte em consolação ou preparo, à qual não é possível, senhores jornalistas, endereçar, como culpados, os motociclistas cujos capacetes não são identificáveis. essa morte comandada, como tantas outras, mas que não se iguala, pois toca a quem próximo.

essa morte, filha da impunidade presumida, adivinhada, morte anunciada e (me pergunto por que) não evitada.

essa morte não minha, mas de cujo abismamento e letargia partilho.

não a compaixão, mas o co-padecer.

do luto que não redime, que não promete, que não transcende hoje co-padeço, colateralmente, é fato, mas que é preciso dizer. dizer, pelo menos, como exercício não-redentor, repito, mas necessário. repetição do vazio de outrem. aceitação seca do vácuo. labor do vácuo. do qual participo como aquele que não observa, mas espera aqueles que, estes sim, o sofrem por dentro.

“Mas há períodos em que o escravo livre não tem estatuto social, ele está fora de tudo. Deve ter sido assim para a geração dos negros na América com a abolição da escravidão. Quando houve a abolição ou então na Rússia, não tinham previsto um estatuto social para eles e foram excluídos. Interpretam erroneamente como se eles quisessem voltar a ser escravos! Eles não tinham estatuto. É neste momento que nasce o grande lamento. Mas não é pela dor, é uma espécie de canto e é por isso que é uma fonte poética. Se eu não fosse filósofo e fosse mulher, eu gostaria de ter sido uma carpideira. A carpideira é uma maravilha porque o lamento cresce. É toda uma arte! Além do mais, tem um lado pérfido: não se queixe por mim, não me toque. É um pouco como as pessoas demasiadamente polidas. Pessoas querendo ser cada vez mais polidas. Não me toque! Há uma espécie de… A queixa é a mesma coisa: "não tenha pena de mim, disso cuido eu". Mas ao cuidar disso, a queixa se transforma. E voltamos à questão de algo ser grande demais para mim. A queixa é isto. Eu bem que gostaria de todas as manhãs sentir que o que vivo é grande demais para mim porque seria a alegria em seu estado mais puro. Mas deve-se ter a prudência de não exibi-la, pois há quem não goste de ver pessoas alegres. Deve-se escondê-la em um tipo de lamento. Mas este lamento não é só a alegria, também é uma inquietude louca. Efetuar uma potência, sim, mas a que preço? Será que posso morrer? Assim que se efetua uma potência, coisas simples como um pintor que aborda uma cor, surge esse temor. Ao pé da letra, afinal, acho que não estou fazendo Literatura quando digo que a forma como Van Gogh entrou na cor está mais ligada à sua loucura do que fazem supor as interpretações psicanalíticas, e que são as relações com a cor que também interferem. Alguma coisa pode se perder, é grande demais. Aí está o lamento: é grande demais para mim. Na felicidade ou na desgraça… Em geral, na desgraça. Mas isso é detalhe.” – Deleuze e Parnett, “O abecedário de Deleuze: joie [alegria]

“isso é grande demais, meu deus. é grande demais. mes ultrapassa, é muito.” (os astutos ouvem uma reclamação, mas os sãos compreendem: essa alegria é grande demais, meu deus.)

“dói, porque é grande demais. ai, meu deus!” (aqui riem-se os maliciosos. os castos, no entanto, compreendem: a liberdade é grande demais para ser hasteada em praça pública. e sabem que há um preço a se pagar por ela, mas não podem prevê-lo. por isso, é preciso disfarçar a liberdade em dor, como fernando pessoa dizia sobre o poeta: fingindo ser dor a dor que deveras.

sem revelar a causa da dor. principalmente porque isso não importa mais. a liberdade é grande demais para que eu, apátrida, me lembre de minhas origens.)

deus é fascista.

essa história de ser atravessado está muito malcontada…

Ich habe bin an etwas gedacht.

a distinção fenomenológica entre atualidade e possibilidade não é suficiente para demonstrar como a atualidade é, mais que simples possibilidade de um horizonte indeterminável, potência. poder e poder-ser não se excluem, mas sua relação tampouco pode ser de derivação. a possibilidade de um homem ser aquilo que em termos fáticos ele é nunca se reduz à sua facticidade, assim como a facticidade, em meio à qual o homem define-se como ser de potências (e nao simples potencialidades), é um rasgo essencial do horizonte de possibilidades não-determináveis a priori. é um rasgo essencial: a potência rasga a indeterminidade, a potência permite em termos efetivos – e não apenas ontológicos, ou melhor, não é mera garantia de um ser-possível. em suma: a potência funda o homem a partir de seus possíveis. o virtual, que é co-dado em cada momento, é sempre atual (enquanto virtualidade), mas nem todo virtual é potência, nem toda possibilidade, de fato, pode.

isso tem implicações pessoais que só agora vislumbro, e sobre as quais talvez eu venha a falar. de qualquer modo, dá-se agora mais um rasgo em mim, rasgo que nao é um furo, mas, para usar mais uma vez a imagem heideggeriana, rasga um abismo, diante do qual eu caio “para o alto”. um abismo sideral, que me permite não só alcançar as estrelas, mas, sobretudo, habitá-las.

até bêbado eu escrevo bem.

 

*ou “consolador”. tanto faz…

“Ojos llenos de deseo de volar hacia otros mares más azules, pulcro como la virginidad, infinitos como la desdicha de quien ama en secreto.” In: probraconmigo

 

a angústia só ocorre no silêncio. mas, concomitantemente, opera as “reverbarações do grito”, parafraseando o ubiratan. a angústia é fascita, obriga a dizer, tanto quanto é perfeccionista, pois nem todos os dizeres lhe servem. o dizer que serve a angústia não alivia, tranquiliza, acalma. ele faz continuar o grito e a intranquilidade. a palavra angustiosa não cura, não amaina, não torna plano. a palavra angustiosa acrescenta harmônicos.

por essa janela que te abres, essas grades de palavras, esse narcisismo, como o meu, também ferido e que se encolhe, por essa abertura às avessas, arredia, intranquila, difícil, podes, pergunto-me, poderias te aninhar?, tens a capacidade do colo? sei apenas que vês e te calas diante dos meus olhares que refletem certa luz – tão certo que não é reflexo, mas de dentro já lume –, olhares que te visam também eles intranquilos, enviesados no que têm de fundo – talvez para não se inundarem. ou talvez porque… não sei por que motivo te evitam. mas te evitam. como a luz do sol é desviada pelo vidro na janela ou a água no poço. oblíquo te vejo, te mostro. descontadas as grades, essas sim frontais.