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Category Archives: Eu e meus idiomas…

O amor é uma flor frouxa

Que brota, cresce, às vezes morre

Na fértil seara de corações trouxas

 

Somos todos trouxas, menos você

Com coração mais sagaz

Da ironia rapaz

E as pernas sempre abertas em V

 

A estultícia é aprazível a quem se lhe entrega

Disso bem sabem os espertos ferinos

Mas, da dor e da partilha alheia inquilinos,

Sequer alcançam o jogo dessa gente brega

 

Pra você da arquibancada, jogando ovo,

Vaiando, aqui proponho (resta-um) um jogo:

Palma da mão olhando

Das laterais ao centro, em pares, dedos guardando

 

Larga de ser cuzão

Amor tem regra não

Cabe muita alegria e tesão

très atinado, très inflamado, très articulado: assim foucault très escreveu. e, para os familiarizados com as liaisions do francês, soarão ecos em português: desatinado, desinflamado, desarticulado, desescreveu. pois eis, em pares, o que foucault fazia: (des)razão, resfriamento e chama, reescrita interminável e abandono da hermenêutica, (des)conjunturas. donde vem a impertinência do careca, essa impertinência sempre perigosa, maliciosa, que se esgueira, que pergunta e espera. impertinência, sobretudo, deliciosa e sugestiva.

mas o modismo político biopoderoso há de ruir os duplos, há de colocar por terra a impertinência, há de converter a figura sugestiva numa panfletária imagem denunciadora…

foucault morre não de complicações da aids, mas de propaganda.

Ich habe bin an etwas gedacht.

Das ist der Tag des Herrn!

Ich bin allein auf weiter Flur;

Noch eine Morgenglocke nur,

Nun Stille nah und fern.

 

Libertar-se do estilo requer paciência, assepsia, tenacidade, quietude e solidão.

"a poet’s voluntary blindness prevents from being involuntarily blind."

isso mesmo, verbo conjugado. mal conjugado, que afinal se trata de um imperativo.

como há anacronismos sempre, cumpre talvez um esclarecimento situado quase exatamente entre o prévio e o póstumo: ao começar o blog, não havia objetivo ou planejamento original/originário. o que continua não havendo. tratava-se somente de explicitar o que antes parecia a multiplicidade e, agora vejo claramente, trata-se apenas de mim, um único mim, mesmo com todos os ecos e alheios que pululam os escritos. estou apenas, como lygia fagundes telles em vários contos, tentando narrar acontecimentos de que não se sabe sempre o começo, o fim ou o percurso de um a outro. às vezes são como pontos sonoros, as fagulhas webernianas na sinfonia, op. 21. oboés, trompas, cordas solistas, o tecido frouxo, a trama branca de algodão artificial.

pois que não se espere naturalidade, senhores: escrevo a muito custo, inclusive ao preço de me livrar de algumas técnicas. puro exercício, sem ensaio geral ou aplausos ou vaias. às vezes, alguma alusão de encantamento ou reprovação. outras, ênfases que inclusive fazem doer na carne da língua. porque a boca, a boca também é a mão que escreve. e por isso tantos dias de dedos mudos e insatisfeitos.

mas o silêncio é ele mesmo exercício, talvez o mais difícil. e, longe de resolver esse problema, aliás, criando uma nova contradição, devo afirmar: contento-me em falhar no exercício do silêncio. o que, se não é garantidamente vitória, ao menos é sinal de que é possível. o quê?: mas é possível, e, por ora, basta.

então, pega a minha idade e multiplica por três e tira vinte. foi o resultado que eu me dei depois que constatei que prefiro tomar chai a curar ressaca no domingo à tarde…

 

a propósito duplamente: primeiro porque ando super ranzinza com algumas coisas; depois porque escrever “alto-falantes” me remeteu a um fórum engraçadíssimo sobre a reforma ortográfica. procurem uma comunidade chamada “revisores” no orkut, olhem um tópico em que se discute a grafia de rádio-relógio SEM hífen – é, como a clarice fez n’a hora da estrela, só que ela sim tinha razão! – e um outro tópico sobre o uso de “aterrissar” para se referir ao pouso do homem na lua. como não posso acessar mais o orkut, não tenho como colar o link. mas, como tenho dito muito: fica a dica, rs. ah, não se esqueçam de conferir o vídeo no youtube em que jornalistas portugueses encontram erros crassos – ou seriam craços?… esperemos que eles decidam(?), rs – no texto da reforma. imperdível.

estudar alemão me põe dentro de/ defronte às minhas mais recônditas: limitação; perseverança.

“empreendedorismo”, “logística”, “estimativa” e termos comerciais, estatísticos, políticos e afins são as palavras mais horrorosas da língua portuguesa.

 

prontofalei.

uma estranha ausência de palavras. como se estivesse aprendendo húngaro. mas o mundo não fala húngaro para mim. eu aprende-se.