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Category Archives: freudianas

há uma forma difícil de temporalidade, que é a do passado* que retorna invertendo papéis, subvertendo relações, e diante do qual é possível agir de diferentes formas.

 

1) com culpa – quando compreendemos erroneamente o retorno como quitação de dívida, como karma, como responsabilidade, como necessidade de resolução de algo que supostamente não foi encerrado;

2) com ironia – debochando do retorno, desviando de compreendê-lo e amá-lo, desprezando-o como oportunidade de reconciliação;

3) com narcisismo e autoengano – projetando-nos no retorno deformadamente, olhando-nos em espelhos d’água que vibram à menor mirada e que nos dão a imagem turva de não termos sido aquilo que retorna;

4) com alegria – acatando sua presença como possibilidade de exercício de saúde, de aumento de potência e de intensidade, de conhecimento das profundezas das perspectivas alheias, de ascensão.

 

como doem, como ferem essas reações! como fazem adoecer, padecer a carne e o espírito!… porém, somente a ingenuidade da última é que anestesia e regenera. somente ela, a mais difícil, convalesce.

 

 

 

 

*falo do passado existencialmente suportável, não o passado hediondo ou que assuma a forma, qualquer que seja, de uma hybris: diante de um retorno como esse, talvez não seja possível a aceitação livre do amor fati, talvez o tempo esteja condenado ao ressentimento, ao trauma – eis um possível limite existencial que não devemos pensar como transponível, esse que é a experiência do tempo inelutável.

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às vezes escolhemos vias neuróticas por que passamos mais ou menos demoradamente. estas vias têm mil atalhos como de labirintos, condenando-nos ao círculo.

 

a rota de fuga é, em princípio, simples: reta vertical e horizontal, cavando para compreender, elevando-nos para superar, derrubando as paredes que nos cercam. o problema reside no teor de açúcar de circular ao infinito.

 

alegria exige disciplina dietética.

primeiro foi a crença em deus. depois, na gramática. quando pensávamos que o último resquício de teleologia estava na subjetivdade transcendental da fenomenologia, eis que aparece ela, a promessa de liberação, de ateísmo, de razão, enfim, poder, inteiramente comprometida – a linguagem, a necessidade de que a linguagem tenha significado, a crença e a necessidade da crença numa subjacência que aglutine seus pedacinhos num globo translúcido de cristal, tão fantasioso e falsamente real quanto um bibelô simulando um cenário natalino.

 

se a linguagem significar – ai de nós!

minhas lembranças, trato-as como vitrais, com o esmero com que preservamos as amálgamas delicadas de nossas existências pregressas. predominam sempre as translúcidas plaquetas verdes, azuis e róseas, que são, mantendo seu caráter de transparência, aquelas que mais podem vitrificar cálidas e alegremente frias as lembranças que me alentam. isto me aquece, ma non troppo – eis o sucesso.

 

mas as tuas lembranças, sobretudo a forma de persistência do passado (é uma presença entrecruzada com outras presença?, é uma sequela?, é um signo?, é um acidente, um recalque ou um labor?), como poderia eu, tão acostumado a mim, tão ingenuamente (talvez convenientemente) crente na minha estrita(?) separação entre desejo (presente) e amor (extratemporal), como poderia eu admitir o aldilà que é direito teu (caso ele exista. pois também é direito não velar e zelar memórias privadas, memórias de dois, familiares – depois disso, o trabalho é da comissão da verdade)? e é uma pergunta provocativa, difícil, pois, a mim, exige uma nova metodologia em relação ao passado que não é meu, e que talvez não me toque. mas que eu poderia sentir, que está implícito, e que, de uma forma ou outra, molda a minha presença e o meu presente.

 

está tudo fora de hora e de ordem. agora é tempo de ser presença e presente. é tempo dessa vivacidade fugaz, dessa inquietação, do prazer matinal, da alegria inquieta e dançarina de uma simples – presença. talvez (mais uma dentre várias inquietações e dúvidas) seja esse tom de alegria que deva pautar também o porvir. talvez só haverá porvir enquanto alegria, pois a tristeza não só é peso e caída (existencialistas) ou diminuição de nossa potência (spinoza-nietzsche-deleuze), não é apenas uma verticalidade oceânica. ela, assim como a a alegria, também se desdobra num horizonte, com os lados e a ilusão de profundidade característicos de toda disposição horizontal. mas, diferentemente da alegria, a tristeza é cessação de movimento, de futuro, poça rasa incapaz mesmo dessa ilusão.

 

alegria é, voltemos a ela, o que torna tudo possível. os existencialistas estavam errados, graças a deus. mas podemos agora pedir a conta, ir para casa e dormir em paz? jamais: a alegria exige disciplina, porque não é um afeto, mas uma prática.

 

hoje fiz este exercício para ti. para vós. para o mundo. para mim. e, sobretudo, para ninguém. fiz esse exercício de alegria que é a gratidão absoluta, instransitiva. que é a luz que projeto e atravessa os cristais de memória que velo.

 

eles, na verdade, não me aquecem. eu que me aqueço para suportar com alegria sua permanência louca, improvável e recorrente.

ao sujeito confessional, ao homem cujo umbigo é a via natural de relação com o universo, que é o buraco-negro para onde todos os demais universos são arrastados e dissimulados, parece uma afronta, até mesmo uma  franca crueldade compreender e amar (amor fati) que os signos: sejam, por natureza, irreversíveis; se dispersem em séries autônomas que se cruzam com outras séries a esmo; que não se pode controlar ocasionais encontros multisseriais que os núcleos subjetivos – menores que os signos que os atravessam – gostariam de vetar; não tenham origem, nem mesmo humana, mas cuja forma de existência é simplesmente atravessar as existências e os espaços.

o signo é irreversível, multidirecional e entrópico. e, além disso e mais importante que isso, é anônimo – o signo é o golpe derradeiro contra o narcisismo.

“Ojos llenos de deseo de volar hacia otros mares más azules, pulcro como la virginidad, infinitos como la desdicha de quien ama en secreto.” In: probraconmigo

 

a angústia só ocorre no silêncio. mas, concomitantemente, opera as “reverbarações do grito”, parafraseando o ubiratan. a angústia é fascita, obriga a dizer, tanto quanto é perfeccionista, pois nem todos os dizeres lhe servem. o dizer que serve a angústia não alivia, tranquiliza, acalma. ele faz continuar o grito e a intranquilidade. a palavra angustiosa não cura, não amaina, não torna plano. a palavra angustiosa acrescenta harmônicos.

do sentido do suicídio

ontem me dei conta de como a relação entre valoração (sentido, portanto) e suicídio é gritante. mas, pela primeira vez, consegui sair do impasse entre uma análise puramente externa e uma estritamente ostracista. explico-me.

nos meus devaneios, cheguei a pensar corretamente que somente a alegria é que pode valorar verdadeiramente. influência forte de nietzsche, a partir de quem cheguei à conclusão de que alegria é o oposto tanto de melancolia quanto de contenteza, mas nem sempre de tristeza. parece mera diferença terminológica, e, mais especificamente, diferenças terminológicas psicanalíticas, mas isso não é o foco do meu interesse. a diferença é que a alegria é o desvício, se se quiser, mais simplesmente, força alegre, vida, e, por isso, somente por isso, se diferencia da contenteza e pode existir concomitantemente à tristeza – mas nunca na melancolia. posto isso, devo dizer que me esqueci de um trecho importante de além de bem e mal em que nietzsche diz aproximadamente que o escravo também quer dominar. a fraqueza quer se assenhorar. este pensamento fundamental, desprovido das consequências absurdas e, por que não dizer, nesfastas de outrora, este pensamento eu mantenho.

para sair do impasse entre o “o suicida se mata porque quer chamar a atenção alheia” (que implicitamente aponta para uma plateia, ou seja, sociedade ou comunidade ou grupo – enfim, outrem) e o “o suicida se mata para aliviar a própria dor” (perspectiva individualista, umbigal), recorro leve e livremente à tese freudiana do trabalho de luto. o suicídio não pode ser considerado como um recalque – ainda que todos os recalques possam ser suficientes para levar alguém ao suicídio. o suicídio rompe, o que já o diferenciaria de um recalque, mas, mais importante, o suicida vê no suicídio efetivo uma possibilidade de encerrar a falta de sentido do sofrimento. o que, por si, já valora o sentido que o sofrimento deve ter, ou ao menos determina que o sofrimento deve acabar se não tem sentido. o suicídio é o sepultamento do sofrimento vão. como toda sepultura, o suicídio traz a marca do jazigo, ou seja, do sinal da morte que deve ser visto. o velório é o período em que ainda se pode olhar para o morto para reconhecer nele mesmo a morte presente, viva em sua carne. depois, não se tem mais acesso ao corpo, não só porque ele apodrece (ainda que não se possa descartar esse fato como menor), mas porque, para quem permanece vivo, não basta só enterrar o morto, mas também enterrar o passado. enterrar significa, assim, mais que depositar os restos de um corpo: enterrar é trazer a marca da morte à vista de quem quiser vê-la; ao mesmo, é assentar a morte em seu devido lugar, que não é o centro da vida plena e das ocupações corriqueiras. com isso, o suicídio é um trabalho de luto marcado pelo desejo fraco, o desejo de morte. o suicida enterra o próprio passado insuportável e o põe ele próprio à vista de todos. ele inverte e subverte o trabalho de luto em seu aspecto mais alegre: a superação da temporalidade traumatizada. o fluxo de promessa que é a característica do futuro, do porvir, do devir, isso é posto em dúvida com a morte de outrem. ao menos do ponto de vista dos sobreviventes que superam o trauma. para o suicida, porém, toda a vida pregressa é pura temporalidade traumatizada. o suicídio lampeja, assim, como superação. o suicídio é o enterramento sem velório, porque o que o suicida enterra, igualado ao seu ser total, é a dor insuportável, e, sendo insuportável, ele não pode olhar para ela morta, primeiro porque não suporta mais, segundo porque ela não morreu nem acena morrer.

o que para mim é promessa, para ele é dúvida; o que para ele é certeza, para mim é absurdo.

permaneço no terreno movediço dessa ambiguidades que, quando conjugadas, permanecem e se tornam ainda mais ambíguas. donde a compreensão, muitas vezes, não se reduz ao acordo.

o homem de força não suporta, a não ser pela violência ou arrogância, a fraqueza alheia; o fraco, por sua vez… – procede igualmente.

por que, afinal, eu também quero destruir?, por que, também eu, destruir? existe um germezinho de verme que corrói e que me habita, existe esse germezinho, esse inho aniquilador, mesquinho, que me faz enxergar estreito, que me tende ao pior nada que existe, que destrói as contradições simples e as reduz, rebaixa a paradoxos?

o mais difícil não é meramente reconhecer isso em mim: basta olhar retrospectivamente e aceitar, e esse mínimo de humildade não me falta. tampouco falo de arrependimento: arrepender-me de ser?, que absurdo… se trata unicamente de integrar-me a mim.

o fato é que, menos que retratação pública (porque nem sei se é caso disso, se há em relação ao que me retratar, definitivamente não o sei…), se trata de reorganização íntima. como aceitar que eu também mato? isso me remete à passagem em uma aprendizagem ou o livro dos prazeres em que se discute sobre comer galinha ao molho pardo e sangue: cometer os pequenos crimes nos salva de cometer os grandes. o problema: quando saber que é grande ou pequeno? a resposta: sempre se sabe (nós, que não somos psicopatas).

agora o problema me é duplo: matar os fantasmas, criando os duendes (ou ao menos os convidando para perto), e, ao mesmo tempo, integrar os fantasmas como o que são: basilares como as demais forças criativas.

e reconhecer que a destruição também está aí e quer criar e subsistir. em linguagem nietzscheana: os instintos fracos querem – dominar.

“por que vocês todos que me fazem sentir ameaçado não experimentam algo novo e radical e deixam de fazer concorrência? combustão espontânea é uma possibilidade super válida.”