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Category Archives: Lisa Simpson

fim de tarde, e as colorações e intenções das nuvens denunciavam tensão entre as forças de paz e chuva no céu.

 

e só por meio dos olhos percebo aquilo que a limitação dos olhos não pode nunca me dar inteiro: a imensidão intransitiva do que está acima.

Sempre quis um amor

que coubesse no que me disse.

Elisa Lucinda, “Da chegada do amor”

 

Aquilo que enchera com realidade os seus dias reduzia-se a nada diante do ultimato de dizer. Como se via, aquele homem não era um realizador, e como tantos outros, só sentia a intenção, da qual o Inferno está repleto.

Clarice Lispector, “A maçã no escuro”

 

 

Dos átimos, dos ínfimos, das brechas, do craquelê: é disso que se constitui a persuasão das palavras nos momentos de euforia ou de incompreensão. Aprender a desconfiar, a “pôr ponto atrás de ponto”, a entender que o discurso alheio também tem curvas, entremeios e becos. Aprender que, quando as palavras não cabem na gente, a gente também não cabe nelas. (E não se trata de recusar ou acreditar plenamente no poder clarificador da palavra. Apenas reconhece-se um limite que, ele mesmo, traz suas possibilidades.) Que nenhum signo é irremediável, mesmo que talvez não seja reversível, anulável. Aprender que a saúde não é, muitas vezes, a pura eliminação, mas a assimilação produtiva do que torna doente. Que não há razão que dê conta da existência da razão. Ou da paixão. Que pensar é entrega, que dizer é afecção, que tudo tem, no mínimo, uma dose de pathos, e que essa patologia, se bem assimilada, é saúde.

Querido diário,

 

Hoje eu cintilei.

Existe um dia em que as palavras parecem brotar de outra fonte. Fonte-alteridade. Existe a espera pela fonte. Existe essa inquieta espera, impressionável porque eu, tão impaciente, agora espero. Espero que me dê, ele, o que falar, o que esperar, o que perder o sono. E, se me dá, é porque eu me abri a receber. Não por atividade, mas por virtude minha, que nada tem de apassivadora. E já não é o susto, mas a simples surpresa que me põe na intimidade com o outro, que o põe em intimidade comigo, bem como cada um consigo mesmo. É possível que isso se dê? Sim, consigo mesmo: nada me rouba isso. É a virtude de ser em e na virtude da segunda pessoa, o tu, que, na verdade, é a primeira pessoa que se é como agora sou, nós. O tu, diferenciando o eu, faz o nós? Deixo isso a um Hegel. O que me cabe é menos o termo que se opõe a outro. O que me cabe é que essa minha palavra é nossa, sem desposse. Mas falar também é despossessão, de certo modo: abro-me ao que não é eu, mim, me. Entre essa despossessão e seu oposto, o que não vige mais é – a perda.

, e eu sinto que as coisas se sucedem umas após as outras, como se os fatos antecedentes, os sucessivos, e sucessivos, e sucessivos, sem dor, pois no paraíso não se sente dor, não é mesmo?, sucedendo-se ininterruptamente a ponto de eu não saber mais se já me viciei nas passagens, se para mim o que importa é a sucessão e não os eventos, e isso dói porque eu nem fatos quero, só queria estar-com enquanto tudo me parece em estado infindável de vírgula.

ou melhor:,

“Querido diário,

hoje eu tenho, mais uma vez, aquele medo de arrebentar de expectativa contente.”

parafraseando a passionária que habita cá dentro.

o que me é difícil, impróprio, inoportuno, impensável, incipiente, incômodo, inviável, inexplorável à primeira vista, tudo isso que em mim nega o que é mim, isso é o que, enfim, me arrebata, eu arredio,avesso. eu às avessas comigo mesmo acabo por fim rompendo eu outro eu-mesmo. romper para onde? para a superfície, que é necessário que essa paixão toda transpareça, a alma estampada na face, a face estampando o ser-todo e todo o meu ser.

um dia hão de me entender a respeito de e me dar: a bolha que me proteja. é, porque eu simplesmente sou um tanto, como diria, como um ingênuo voluntário. un peu démodé, io lo so bene. però…

(para os que não presenciaram os fatos, ou seja, todos: – e só me falta aparecer algum jantar de noivado para me desiludir completamente – eu desacreditava que certas práticas ainda aconteciam. por exemplo: cantadas baratas e bêbados chatos pagando rodadas de cervejas para desconhecidos. eu, que acreditava  num mundo melhor. acreditava. e não, talvez hoje apenas, pensaria duas vezes: não abriria a porta e tomaria a pílula azul.)

é que eu, não querendo me justificar mas sim me descrever, é que eu tenho vivido um sentimento tão imenso que eu nem poderia suspeitar que em mim caberia. é que a vida me parece sempre entre parênteses na ausência do homem a quem me refiro aqui. em suspenso. reticente e lacunar. quem é ele? não importa?: claro que importa, mas não vem ao caso neste instante. o que importante se torna é perceber que poderia ser qualquer pessoa – mas não é qualquer uma. isso em mim tem sido e promete continuar a ser tanto, tanto, tanto que. que nem sei o que virá a ser. mas virá, já está a caminho.

o que assusta em nós quando nos deparamos com isso que nem sabemos definir (pois o termo “amor” não é o bastante, ainda que fiquemos tentados a não descartá-lo de pronto) é que nunca podemos suspeitar da e nos colocar frente à nossa capacidade para a grandeza.

pois que ser grande está a sair de moda, tão acostumados estamos às coisas miúdas. a grandeza tem que ser humilde o suficiente para se reconhecer grande e não incorrer no pecado à castidade de sua grandeza se pretendendo menor.

notar que grandeza nem de longe toca em megalomania. esta não passa de desocupação ou paranoia.

eis porque, afinal, os outros eus parecem ter faltado neste blog. é que estão todos a celebrar assustados a grandeza. é que eu, não querendo me justificar mas sim me descrever, é que eu tenho vivido um sentimento tão imenso que eu nem poderia suspeitar que em mim caberia. mas cabe. e não cabe, pois vai além de mim até o amado. (ainda que eu tema usar “amor” por medo de uma compreensão truncada. para evitá-lo, deve-se negar quaisquer possibilidades românticas ou o oposto delas. longe de ser um meio-termo, o que sinto está muito aquém e muito além de tais determinações.) (mas, a propósito, o termo não me assusta nem um pouco, o que o mostra o fato de o ter empregado aqui.)

"Querido diário,

tenho sofrido espasmodicamente com meus rompantes possessivos e ciumentos. Pela primeira vez em anos existe aquela luminescência que não provém de mim – e que me alumia o ser. E eu nunca soube o que fazer quando ela veio. Talvez por ela não ter vindo muitas vezes, talvez por não ter vindo muito. Mas dessa vez eu quis mais de mim e caí no perigo da fera-fúria dominadora, digo, aniquiladora. De mim, do outro que me acende o lume em chama. Brasa em carne viva que pulsa vermelhante.

Com a quimera em mãos, a saber, o poder de me sentir onisciente, onipresente e onipotente numa estreita faixa de alcance (mais ou menos como Deus, ou como o Papai Noel – ahaha. Agora voltando à seriedade inicial:), nessa estreita faixa eu me iludi e me afundei afogado em tormentos que eu mesmo criei. Como meu umbral.

Mas agora, iluminado por mim mesmo, evitando obscurecer também a luz que não provém de mim, mas provém a mim, sinto que meu olhar finalmente se desenlaça de empecilhos vãos, dos dois únicos que se fazem cegos ao que tanto me al(im)enta: o medo de se dirigirem a todos e a nenhum dos passantes. Porque olhar já não é mais preciso, ou seja, luxo, é que eu posso, como possibilidade, olhar sem medo.

E já nem me ocupo dessas paranóias.

É tão belo olhar que.

Que eu me.

Esqueci."