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Category Archives: Meteorologia

minhas lembranças, trato-as como vitrais, com o esmero com que preservamos as amálgamas delicadas de nossas existências pregressas. predominam sempre as translúcidas plaquetas verdes, azuis e róseas, que são, mantendo seu caráter de transparência, aquelas que mais podem vitrificar cálidas e alegremente frias as lembranças que me alentam. isto me aquece, ma non troppo – eis o sucesso.

 

mas as tuas lembranças, sobretudo a forma de persistência do passado (é uma presença entrecruzada com outras presença?, é uma sequela?, é um signo?, é um acidente, um recalque ou um labor?), como poderia eu, tão acostumado a mim, tão ingenuamente (talvez convenientemente) crente na minha estrita(?) separação entre desejo (presente) e amor (extratemporal), como poderia eu admitir o aldilà que é direito teu (caso ele exista. pois também é direito não velar e zelar memórias privadas, memórias de dois, familiares – depois disso, o trabalho é da comissão da verdade)? e é uma pergunta provocativa, difícil, pois, a mim, exige uma nova metodologia em relação ao passado que não é meu, e que talvez não me toque. mas que eu poderia sentir, que está implícito, e que, de uma forma ou outra, molda a minha presença e o meu presente.

 

está tudo fora de hora e de ordem. agora é tempo de ser presença e presente. é tempo dessa vivacidade fugaz, dessa inquietação, do prazer matinal, da alegria inquieta e dançarina de uma simples – presença. talvez (mais uma dentre várias inquietações e dúvidas) seja esse tom de alegria que deva pautar também o porvir. talvez só haverá porvir enquanto alegria, pois a tristeza não só é peso e caída (existencialistas) ou diminuição de nossa potência (spinoza-nietzsche-deleuze), não é apenas uma verticalidade oceânica. ela, assim como a a alegria, também se desdobra num horizonte, com os lados e a ilusão de profundidade característicos de toda disposição horizontal. mas, diferentemente da alegria, a tristeza é cessação de movimento, de futuro, poça rasa incapaz mesmo dessa ilusão.

 

alegria é, voltemos a ela, o que torna tudo possível. os existencialistas estavam errados, graças a deus. mas podemos agora pedir a conta, ir para casa e dormir em paz? jamais: a alegria exige disciplina, porque não é um afeto, mas uma prática.

 

hoje fiz este exercício para ti. para vós. para o mundo. para mim. e, sobretudo, para ninguém. fiz esse exercício de alegria que é a gratidão absoluta, instransitiva. que é a luz que projeto e atravessa os cristais de memória que velo.

 

eles, na verdade, não me aquecem. eu que me aqueço para suportar com alegria sua permanência louca, improvável e recorrente.

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“Mas há períodos em que o escravo livre não tem estatuto social, ele está fora de tudo. Deve ter sido assim para a geração dos negros na América com a abolição da escravidão. Quando houve a abolição ou então na Rússia, não tinham previsto um estatuto social para eles e foram excluídos. Interpretam erroneamente como se eles quisessem voltar a ser escravos! Eles não tinham estatuto. É neste momento que nasce o grande lamento. Mas não é pela dor, é uma espécie de canto e é por isso que é uma fonte poética. Se eu não fosse filósofo e fosse mulher, eu gostaria de ter sido uma carpideira. A carpideira é uma maravilha porque o lamento cresce. É toda uma arte! Além do mais, tem um lado pérfido: não se queixe por mim, não me toque. É um pouco como as pessoas demasiadamente polidas. Pessoas querendo ser cada vez mais polidas. Não me toque! Há uma espécie de… A queixa é a mesma coisa: "não tenha pena de mim, disso cuido eu". Mas ao cuidar disso, a queixa se transforma. E voltamos à questão de algo ser grande demais para mim. A queixa é isto. Eu bem que gostaria de todas as manhãs sentir que o que vivo é grande demais para mim porque seria a alegria em seu estado mais puro. Mas deve-se ter a prudência de não exibi-la, pois há quem não goste de ver pessoas alegres. Deve-se escondê-la em um tipo de lamento. Mas este lamento não é só a alegria, também é uma inquietude louca. Efetuar uma potência, sim, mas a que preço? Será que posso morrer? Assim que se efetua uma potência, coisas simples como um pintor que aborda uma cor, surge esse temor. Ao pé da letra, afinal, acho que não estou fazendo Literatura quando digo que a forma como Van Gogh entrou na cor está mais ligada à sua loucura do que fazem supor as interpretações psicanalíticas, e que são as relações com a cor que também interferem. Alguma coisa pode se perder, é grande demais. Aí está o lamento: é grande demais para mim. Na felicidade ou na desgraça… Em geral, na desgraça. Mas isso é detalhe.” – Deleuze e Parnett, “O abecedário de Deleuze: joie [alegria]

“isso é grande demais, meu deus. é grande demais. mes ultrapassa, é muito.” (os astutos ouvem uma reclamação, mas os sãos compreendem: essa alegria é grande demais, meu deus.)

“dói, porque é grande demais. ai, meu deus!” (aqui riem-se os maliciosos. os castos, no entanto, compreendem: a liberdade é grande demais para ser hasteada em praça pública. e sabem que há um preço a se pagar por ela, mas não podem prevê-lo. por isso, é preciso disfarçar a liberdade em dor, como fernando pessoa dizia sobre o poeta: fingindo ser dor a dor que deveras.

sem revelar a causa da dor. principalmente porque isso não importa mais. a liberdade é grande demais para que eu, apátrida, me lembre de minhas origens.)

[prefácio

 

estes dias, ápice de minha produção acadêmica até então, têm-me feito lembrar de um exemplo dado por uma professora de biologia do segundo grau (professora que sempre detestei, mas o exemplo é imagético o bastante para ser citado): certas árvores, como algumas laranjeiras, quando estão por morrer, danam a produzir frutos. e hoje cedo, após ontem, após um longo ontem que foi a chegada da viagem a ribeirão preto no dia 10, é como se a última laranja tivesse se espatifado no chão seco, árido, laranja besta que espera semear o chão insípido, impróprio, laranja impertinentemente doce e esperançosa. (e aqui não se trata de recusar a esperança ou o que me é deserto e cerrado, mas de confiar no impasse de não saber se brotará algo ou se a laraja se espatifa em vão. confio no impasse, sei que ele não é aniquilamento, só é um nó que, independente de ser desfeito, me põe adiante neste momento.)

 

estes dias, ápice de minha produção acadêmica, têm-se resumido a: resumir. curiosamente o resumo é a mais poderosa ferramenta argumentativa da minha dissertação. e estranhamente o que é resumo vira argumento, e vira criação, e deixa de ser resumo.

 

esse procedimento todo torto é o contraponto e o espelho daquilo que estou resumindo: como a história da música é uma história do espaço, das linhas, retas, planos, superfícies. uma história cujo inventário malfeito parece uma lenta progressão, progressista ou circular, das formas, das técnicas, do surgimento de gênios e do soterramento paulatino de compositores ditos menores. a história da música é uma grande topografia, de fato, mas é igualmente uma topologia extremamente capenga de como uma determinada figura conhecida como tradição musical ocidental teria se constituído ao longo de um lapso de tempo mais ou menos determinável.

 

sendo assim, a desterritorialização que opero nos resumos é paralela à desterritorialização que tento operar nessa historiografia ou (como prefiro pensar) topografia, já traçada, assente, tão consciente de si que não pode se converter senão em si mesma, mas não no sentido da eterna repetição que foucault reconhece na linguagem moderna; no sentido, antes, da eterna repetição do que não foi dito, no desvio daquilo que não é trazido à tona, mas eternamente soterrado pelo excesso de repetição e de palavras. freud, ricœur e nietzsche chamam isso de recalque. hoje em dia, chamo simplesmente (e estrategicamente) de incompetência ou impertinência arqueológica. por isso a necessidade de desterritorializar: parar com o soterramento, tornando o resumo dessa topografia uma topologia (que faz o resumo deixar de ser resumo).

 

(e me dá um certo alívio poder, aqui, escrever isso, uma certa angústia que não deixa de soar, mas já não me ensurdece; ao contrário, porque soa menos é que posso, enfim, escutá-la novamente. a angústia, sim, tem seu limite de audibilidade: nem mais, nem menos. e também me alivia, estranhamente, poder contar com a linguagem para não querer dizer nada, mas simplesmente desabafar, no sentido quase literal de tirar do abafamento, menos do que de confessar. essa linguagem, como foucault bem fala dos quadros de klee, que não quer dizer nada, que não tem compromisso com a significação, que mata kafka.)

 

mas, para dar tempo a essa laranja esbugalhada, a essas tentativas desesperadamente esperançosas, é necessário voltar-me a outras coisas, menos sutis, menos diáfanas, menos voláteis e volúveis. por isso, segue o que segue. (uma tautologia é sempre um alívio, especialmente nestes dias em que me deparo o tempo todo com o fato de que o óbvio não é assim tão óbvio. a tautologia previne o paradoxo, e disso não se deve pensar que se trata de uma resistência ao pensar; ao contrário, é às vezes uma ousadia.)]

 

dos facebookers (homens) micareteiros descamisados

 

é preciso tanto desapego, excesso ou umbigo de si mesmo, que subitamente eles me causam interesse, me despertam a atenção para outro tipo de pretensão, que não é impotente, que não é uma ruminação interminável de conceitos. o corpo exposto é, às vezes, o que mais se aproxima da imagem do círculo. resta saber – e a questão ficará aberta, pois não tenho o mínimo interesse em responder – se se trata, de minha parte, de um fascínio invejoso de quem não pode ter essa experiência do círculo umbilical, ou se este tipo de exposição e a potência que ela indica não são limitadas a uma simples exposição (se ela é superficial num sentido pejorativo).

 

ou então – teceira hipótese, com certa dose de esperança – se tudo isso está malposto e o que está em jogo é outra coisa…

"I get along without you very well, of course I do; except when […]

of course I do; but […]

I’ve forgotten you just like I should, of course I have; except to […]

I get along without you very well, of course I do; except perhaps […]”

I get along without you very well, J. Thompson/ H. Carmichael

 

apesar de “apesar de”, abraçando todos esses “apesar de”, aceitando até o limite da carne cada “apesar de”, cada figura que não passa, que não retorna como um recalque, e sim como ode, como gozo, potência, âmbito, cavidade, textura, relevo, esses vales e cumes da intensidade, essa topografia dos ânimos que não sofre erosão, mas que se refigura a todo tempo; daquilo e daqueles que não passam e não querem passar, que eu não sei nem posso esquecer: e, apesar disso, novamente é possível, sem me afogar, imergir nas ambiguidades e suas simultaneidades, anacronicidades, temporalidade de hiperlink, não-linear, intensiva, viva, impertinente. abraçar o que não cabe, ser alguém que não se cabe, que não cabe em lugar nenhum, que tem mais lugares do que se esperaria poder suportar, que tem também esses rondantes à espreita, à espera, à revelia – e aquele que os ama. apesar de, em sua abstinência e ausência.

É, hoje aconteceu comigo uma daquelas cenas que a gente pensa que nunca vai acontecer na vida real.

Estava eu indo para minha primeira suposta aula de italiano [guardem bem a palavra “suposta”]. Quando ia passar de um prédio pro outro, coisa que normalmente eu faria em meio minuto, caiu AQUELE toró. Zão.

Daí encontrei uns meninos que conheço daqui da UFG e ficamos conversando um pouco. Como eu vi que a chuva não iria ceder, resolver sair correndo pra não chegar atrasado.

Adivinhem só os resultados maravilhosos da Dieta de Auschwitz: eu emagreci, minhas roupas ficaram largas. Inclusive a bermuda que eu estava usando na hora. Ela caiu e eu fiquei só de cueca.

Isso é verdade e eu tenho testemunhas.

Mas, no final das contas, achei divertido. Absurdamente inusitado.

Ah, sim, eu disse “suposta” aula de italiano. Cheguei lá na Faculdade de Letras todo molhado e descobri que a aula só começa na quarta-feira.

Em compensação, as chuvas de verão cessaram aqui no peito. Mas isso é pra outro post…

Vou pra casa. Fiz chá gelado de hortelã e erva-cidreira. Com adoçante, sempre. Alguém se habilita?