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Category Archives: Meus gestos

O amor é uma flor frouxa

Que brota, cresce, às vezes morre

Na fértil seara de corações trouxas

 

Somos todos trouxas, menos você

Com coração mais sagaz

Da ironia rapaz

E as pernas sempre abertas em V

 

A estultícia é aprazível a quem se lhe entrega

Disso bem sabem os espertos ferinos

Mas, da dor e da partilha alheia inquilinos,

Sequer alcançam o jogo dessa gente brega

 

Pra você da arquibancada, jogando ovo,

Vaiando, aqui proponho (resta-um) um jogo:

Palma da mão olhando

Das laterais ao centro, em pares, dedos guardando

 

Larga de ser cuzão

Amor tem regra não

Cabe muita alegria e tesão

“quem muito se evita, se convive”

João Guimarães Rosa, “Grande Sertão: Veredas”

as imagens do que é leviano, bruto, violento, estúpido, horrível, brutal, bestial, do que ultrapassa a ordem do classificável – nessa sequência e escala – coabitam conosco. essas imagens, não apenas por serem o que são (imagens), mas pelo modo desenfreado como são, nos atravessam sem que possamos segurá-las, canalizá-las. o enfrentamento desse impalpável bestiário contemporâneo que faz de um monstro um mito (e pouco, aliás, deveria nos surpreender a proximidade ontológica entre os dois) exige pois um contraimaginário que nem sequer conseguimos estabelecer.

nos debatemos, impotentes (porque provavelmente esta seja uma falsa questão), diante do fato de que nossas gerações não conviveram com os horrores da ditadura, do nazismo, do fascismo, do escravismo, da dominação sobre as mulheres, da sociedade disciplinar. a questão não é, em rigor, falsa; mas a falseamos quando levantamos os ícones passados como respostas efetivas à persistência do mal, essa sempre presente. não me parece, pois, que estamos diante de um retorno do passado stricto sensu, mas da continuação de uma história que não passou e não cessa de permanecer. mas os ícones passados, as respostas simbólicas e políticas que conseguiram um dia resistir e derrubar, mesmo que provisoriamente (eis a triste constatação), o aberrante – os ícones passados são monumentos que não mais podemos reativar com expectativa de efetividade.

enquanto chico buarque seguir sendo o herói do presente, estaremos fadados ao fracasso. num mundo em que certas imagens têm uma intolerável ainda que sustentável leveza de ser, a história exige de nós a compreensão do que é líquido e aéreo: contra a resiliência da desrazão diante de todos os argumentos, será preciso armar-se do imaterial e do que, num sentido diferente, não opera no registro do racional.

contra a atual crueza do abominável, da hybris que se instala insensivelmente entre nós e em nós, outro logos é preciso. partindo da razão, mas estirando-se para além dela e para longe das experiências bem sucedidas do passado. numa sociedade em que os únicos símbolos potentes são os do mito aniquilador, é preciso sair do nomadismo coletor e passar ao cultivo do futuro.

no entanto, aqueles que se perdem na acumulação e com a iconofilia do passado, cuja densa materialidade já não mais pode nos salvar, apenas ignoram que as presentes gerações trabalham com a leviandade que lhes é particular. o passado, se apropriado, só será efetivo quando passar a operar no registro do presente. (e essa não é uma demanda ou preciosismo de historiador, que não sou. isso é um limite ontológico de nosso tempo que, não reconhecido, não cessará de nos colocar em convívio com a monstruosidade.)

 

há uma forma difícil de temporalidade, que é a do passado* que retorna invertendo papéis, subvertendo relações, e diante do qual é possível agir de diferentes formas.

 

1) com culpa – quando compreendemos erroneamente o retorno como quitação de dívida, como karma, como responsabilidade, como necessidade de resolução de algo que supostamente não foi encerrado;

2) com ironia – debochando do retorno, desviando de compreendê-lo e amá-lo, desprezando-o como oportunidade de reconciliação;

3) com narcisismo e autoengano – projetando-nos no retorno deformadamente, olhando-nos em espelhos d’água que vibram à menor mirada e que nos dão a imagem turva de não termos sido aquilo que retorna;

4) com alegria – acatando sua presença como possibilidade de exercício de saúde, de aumento de potência e de intensidade, de conhecimento das profundezas das perspectivas alheias, de ascensão.

 

como doem, como ferem essas reações! como fazem adoecer, padecer a carne e o espírito!… porém, somente a ingenuidade da última é que anestesia e regenera. somente ela, a mais difícil, convalesce.

 

 

 

 

*falo do passado existencialmente suportável, não o passado hediondo ou que assuma a forma, qualquer que seja, de uma hybris: diante de um retorno como esse, talvez não seja possível a aceitação livre do amor fati, talvez o tempo esteja condenado ao ressentimento, ao trauma – eis um possível limite existencial que não devemos pensar como transponível, esse que é a experiência do tempo inelutável.

“Quando penso na alegria voraz com que comemos galinha ao molho pardo, dou-me conta de nossa truculência. Eu, que seria incapaz de matar uma galinha, tanto gosto delas vivas mexendo o pescoço feio e procurando minhocas. Deveríamos não comê-las e ao seu sangue? Nunca. Nós somos canibais, é preciso não esquecer. E respeitar a violência que temos. E, quem sabe, não comêssemos a galinha ao molho pardo, comeríamos gente com seu sangue. Minha falta de coragem de matar uma galinha e no entanto comê-la morta me confunde, espanta-me, mas aceito. A nossa vida é truculenta: nasce-se com sangue e com sangue corta-se a união que é o cordão umbilical. E quantos morrem com sangue. É preciso acreditar no sangue como parte de nossa vida. A truculência. É amor também.”

clarice lispector: uma aprendizagem ou o livro dos prazeres 

marejados são meus dias, e também frios e salgados a curtir o difícil aprendizado da violência que me compõe. impiedade sem remédio, sem escolha, e que deveria também ser sem culpa. mas é sem cúmplice, de fato: alegria sem partilha. alegria tormentosa, como já disse deleuze, como fez cantar gesualdo. dolorosa gioia, amor fati que se ensina pela via da intromissão.

assim aparam-se, não sem custo, estas arestas que me aguçam ainda o faro para um passado tão perdido quanto hoje ofuscado. não porque fardo, mas porque – passado.

hoje, digo com estranha leveza:

passa, passa, passa. passa que não te cabe mais uma ode. mas passa e me deixa ver ao menos uma vez que o que te faz cair, não por acaso ou premeditação, mas por destino, me eleva a galáxias inauditas. “luz-balão” que não te alumiou nem fez voar. veneno, mas não a mim.

afirmar, afirmar, afirmar. repetir a afirmação apenas como resistência à fraqueza, como exercício de força contra a impotência. e, então: repetir, repetir, repetir. 

 

– até ser possível esquecer.

por uma História alegre, mesmo que sem reconciliação, mesmo com tantas lacunas das palavras passíveis de emergirem e as circularidades infinitas de mil cascavéis engolindo-se pelos próprios guizos, mesmo com as errâncias, com os projetos inconclusos – que, não me iludo, permanecem em andamento até que um dia a paz nos assente. alegria, alegria!, mesmo que não seja possível o contentamento, a satisfação. alegria!, alegria sobretudo: alegria para suportar o que, do passado, nos dá possibilidade de porvir.

 

(alegria ignora, aliás, passado, presente e futuro. alegria atravessa o plano da existência em direção ao infinito. é, por isso, horizonte puro, possibilidade de ser mais que subsistência e reminiscência. alegria elocubra as neuroses – e, justamente por isso, é o maior dos riscos.)

estar contigo, potência bruta brotando na carne. independentemente dos finais momentâneos, das intermitências ocasionais: mesmo nossas lacunas são atualizações do infinito.

para tanto, é preciso resistir à melancolia, desacelerador de partículas.

estar contigo, devir contigo: exercício de alegria, ultrapassagem da velocidade da luz.

minhas lembranças, trato-as como vitrais, com o esmero com que preservamos as amálgamas delicadas de nossas existências pregressas. predominam sempre as translúcidas plaquetas verdes, azuis e róseas, que são, mantendo seu caráter de transparência, aquelas que mais podem vitrificar cálidas e alegremente frias as lembranças que me alentam. isto me aquece, ma non troppo – eis o sucesso.

 

mas as tuas lembranças, sobretudo a forma de persistência do passado (é uma presença entrecruzada com outras presença?, é uma sequela?, é um signo?, é um acidente, um recalque ou um labor?), como poderia eu, tão acostumado a mim, tão ingenuamente (talvez convenientemente) crente na minha estrita(?) separação entre desejo (presente) e amor (extratemporal), como poderia eu admitir o aldilà que é direito teu (caso ele exista. pois também é direito não velar e zelar memórias privadas, memórias de dois, familiares – depois disso, o trabalho é da comissão da verdade)? e é uma pergunta provocativa, difícil, pois, a mim, exige uma nova metodologia em relação ao passado que não é meu, e que talvez não me toque. mas que eu poderia sentir, que está implícito, e que, de uma forma ou outra, molda a minha presença e o meu presente.

 

está tudo fora de hora e de ordem. agora é tempo de ser presença e presente. é tempo dessa vivacidade fugaz, dessa inquietação, do prazer matinal, da alegria inquieta e dançarina de uma simples – presença. talvez (mais uma dentre várias inquietações e dúvidas) seja esse tom de alegria que deva pautar também o porvir. talvez só haverá porvir enquanto alegria, pois a tristeza não só é peso e caída (existencialistas) ou diminuição de nossa potência (spinoza-nietzsche-deleuze), não é apenas uma verticalidade oceânica. ela, assim como a a alegria, também se desdobra num horizonte, com os lados e a ilusão de profundidade característicos de toda disposição horizontal. mas, diferentemente da alegria, a tristeza é cessação de movimento, de futuro, poça rasa incapaz mesmo dessa ilusão.

 

alegria é, voltemos a ela, o que torna tudo possível. os existencialistas estavam errados, graças a deus. mas podemos agora pedir a conta, ir para casa e dormir em paz? jamais: a alegria exige disciplina, porque não é um afeto, mas uma prática.

 

hoje fiz este exercício para ti. para vós. para o mundo. para mim. e, sobretudo, para ninguém. fiz esse exercício de alegria que é a gratidão absoluta, instransitiva. que é a luz que projeto e atravessa os cristais de memória que velo.

 

eles, na verdade, não me aquecem. eu que me aqueço para suportar com alegria sua permanência louca, improvável e recorrente.

acabou o tempo da mornidão. acabou a tranquilidade forjada, acabou a alísia e macia superfície de pelúcia dos dias encadeados.

só não se sabe ao certo o que começa. mas basta um desvio, um leve descentramento, uma leve flutuação, quaisquer que sejam, para que brote aí uma possibilidade.

“possibilidade!” bradava deleuze para não enlouquecer. eu, menos famoso e mais hiperbólico, mais cartesiano e menos animal, mais polido, melancólico, civilizado, mas também recém-saído da medianidade de um cotidiano perdido, convalescente – eu, homem, digo “possibilidade!” como quem tece um lamento.

basta uma oscilação mínima para o possível vir. enquanto isso, puxo aleatoriamente cartas de um baralho de tarô, apenas pelo prazer de embaralhar tudo novamente e de traçar uma estatística das recorrências: das cartas aparecendo, da minha forma de embaralhá-las e observá-las. (é que, quando vier a possibilidade, quero ter de que me despojar.)

“Mas há períodos em que o escravo livre não tem estatuto social, ele está fora de tudo. Deve ter sido assim para a geração dos negros na América com a abolição da escravidão. Quando houve a abolição ou então na Rússia, não tinham previsto um estatuto social para eles e foram excluídos. Interpretam erroneamente como se eles quisessem voltar a ser escravos! Eles não tinham estatuto. É neste momento que nasce o grande lamento. Mas não é pela dor, é uma espécie de canto e é por isso que é uma fonte poética. Se eu não fosse filósofo e fosse mulher, eu gostaria de ter sido uma carpideira. A carpideira é uma maravilha porque o lamento cresce. É toda uma arte! Além do mais, tem um lado pérfido: não se queixe por mim, não me toque. É um pouco como as pessoas demasiadamente polidas. Pessoas querendo ser cada vez mais polidas. Não me toque! Há uma espécie de… A queixa é a mesma coisa: "não tenha pena de mim, disso cuido eu". Mas ao cuidar disso, a queixa se transforma. E voltamos à questão de algo ser grande demais para mim. A queixa é isto. Eu bem que gostaria de todas as manhãs sentir que o que vivo é grande demais para mim porque seria a alegria em seu estado mais puro. Mas deve-se ter a prudência de não exibi-la, pois há quem não goste de ver pessoas alegres. Deve-se escondê-la em um tipo de lamento. Mas este lamento não é só a alegria, também é uma inquietude louca. Efetuar uma potência, sim, mas a que preço? Será que posso morrer? Assim que se efetua uma potência, coisas simples como um pintor que aborda uma cor, surge esse temor. Ao pé da letra, afinal, acho que não estou fazendo Literatura quando digo que a forma como Van Gogh entrou na cor está mais ligada à sua loucura do que fazem supor as interpretações psicanalíticas, e que são as relações com a cor que também interferem. Alguma coisa pode se perder, é grande demais. Aí está o lamento: é grande demais para mim. Na felicidade ou na desgraça… Em geral, na desgraça. Mas isso é detalhe.” – Deleuze e Parnett, “O abecedário de Deleuze: joie [alegria]

“isso é grande demais, meu deus. é grande demais. mes ultrapassa, é muito.” (os astutos ouvem uma reclamação, mas os sãos compreendem: essa alegria é grande demais, meu deus.)

“dói, porque é grande demais. ai, meu deus!” (aqui riem-se os maliciosos. os castos, no entanto, compreendem: a liberdade é grande demais para ser hasteada em praça pública. e sabem que há um preço a se pagar por ela, mas não podem prevê-lo. por isso, é preciso disfarçar a liberdade em dor, como fernando pessoa dizia sobre o poeta: fingindo ser dor a dor que deveras.

sem revelar a causa da dor. principalmente porque isso não importa mais. a liberdade é grande demais para que eu, apátrida, me lembre de minhas origens.)