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Category Archives: Meus gestos

Afundado em mim, como num buraco-negro, apenas um ódio ainda figurava aqui: não o teu contorcionismo, nem teu contorcionismo retórico, e sim essa praga, quase inominável, insuportável, IM-PER-DO-Á-VEL.

Apenas teu anglicismo horroroso para me injetar algum ânimo no peito e me fazer levantar da cama.

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Ao fim do meu primeiro ano de mestrado, o que me fez suportar o ano final, de dedicação à minha pesquisa, foi interromper todo o processo de trabalho acadêmico para me dedicar momentaneamente à escrita poética e à minha atuação artística. Parece que estou atravessando novamente esse processo: embora meus dedos já não mais pareçam dispostos a colaborar profissionalmente ao piano, há acolhida numa escrita “literária” como exercício da distração, ou melhor, da des-tração. Des-tração que é, em parte, des-travar, mas principalmente um des-traçar. Sendo impossível desescrever, voltar ao ponto zero de uma primeira escrita, resta a tarefa de permanecer na escrita fazendo seus traços tropeçarem em seus pés. Caminhos traiçoeiros nos quais reaprendo a confiar.

, pois há dias, Roberto, em que o peso pesa, em que não é possível um disfarce ou amenidade qualquer, por exemplo, um sorriso protocolar. Em alguns deles, escrevo, pois, se não me alivia esse fardo, ao menos é um jeito de segurá-lo com menor incômodo. Mas outras vezes nada resta senão padecer e esperar, não sei bem como nem o que, só padecer e esperar. Sabes bem que essa espera é física: Atlas suportou o insuportável sobre os ombros, deu seu corpo em sacrifício como rival de um Cristo. A espera é sempre aplicada sobre a carne e os ossos: é o estômago revolto, os olhos e mandíbulas apertadas, a garganta entalada. O peso não é uma metáfora psicológica, é uma sensação mesmo. Mas, sabes, Roberto, nessas horas me lembro das madrugadas enfumaçadas na tua sacada, quando eu, mais jovem e leve, apenas padecia a brisa e a calada da cidade de madrugada. Padecer esse frio e esse silêncio, incorporar esses ocos sem resistir, tantas vezes isso me falta embora seja um alento. Quando os cigarros escasseavam e as garrafas secavam, quando já estávamos embriagados de sono, nicotina e álcool o bastante para insistir em nossos dramas menores, a noite ocupava aquele espaço estreito, não da tua antiga sacada, mas de nossos peitos, e nos convocava a escutar o assovio do vento frio a passar entre as frestas apertadas de dentro. Esse assovio frio, meio fantasmagórico, embora pouco aliviasse, nos sacudia e lembrava o quanto de vida ainda havia por descobrir e plantar. Nessas horas, Roberto, eu me transportava para longe estando ali ao teu lado e ao de outros, e nesses instantes alguma coisa se passava que até hoje continua a passar aqui. Quando o peso de existir, como é o caso de agora, se torna tão insuportável e me esgana, eu assovio por dentro aquelas brisas, mimetizando um espaço-tempo que não volta, mas que também nunca se foi. Mesmo sabendo ser vã a estratégia, o som sombrio daquele tempo de algum modo me conforta o corpo. Talvez porque me abrace esse lado soturno, ou porque, ao menos, lembre que meu corpo ainda pode alguma voz mesmo quando não consiga falar.

há dois tipos de mortes para as quais o trabalho de luto me parece ainda mais difícil, senão impossível. o suicídio e a execução. quase impossível porque no fundo nos devolvem à nossa estupidez profunda, ao nonsense que não redime nem liberta, à crueza de estar nu e em carne viva no mundo. sem amparo vislumbrado.

 

essa estupidez na qual vivemos nos sobressalta como se fosse uma novidade. como se não estivéssemos mergulhados nela, encharcados como que de óleo. não sai com um banho. e não é ignorância. é mais da ordem da brutalidade, algumas vezes do cinismo e da conivência, mas nem sempre é uma questão de má-fé ou de consciência. é uma parte de nós sempre intuída, mas também sempre conjurada.

 

o assassinato de marielle franco assola e interpela violentamente. justamente porque é excesso puro da estupidez, do desamparo, da conivência. não nos atravessa sem porquê possível, mas com todos os porquês possíveis: a precariedade de ser um corpo negro, feminino, lésbico; de fazer desse corpo voz, espaço político, vida pública; de defender os direitos humanos, mesmo que com o custo da própria humanidade ameaçada.

 

neste momento, tentamos dar conta do turbilhão afetivo, do caos factual, da indecidibilidade completa no campo da ação política. tentamos apontar causas (racismo, feminicídio, execução política) e tatear o hoje (porque o amanhã ainda não figura como possível). vivemos no estado de hoje, no agora estúpido, no presente incontornável.

 

mas procuramos também um contexto que explique a obra assassina. um contexto que situe o ato abominável, que emoldure o horror. o trabalho político e afetivo do luto produz essa contextualização para dar conta da estupidez radical. a produção, a feitura (ficção) do luto é um ato de pôr em cena aquilo que talvez nem possa explicar, nem apaziguar, nem consolar: o trabalho de luto põe na ordem do dia a urgência desse agora que não pode passar.

 

alguns lutos são mais difíceis que outros. alguns geram mais comoção que outros. (não é o caso da morte de marielle, mas isso normalmente apenas reflete o estado de banalização de mortes que não contam em nossa sociedade.) o assassinato de marielle precisa ser produzido como co-moção, como mobilização conjunta das urgências do agora. é um luto que não pode passar, mas que deve se manter inflexível, que deve exigir, sim, seu atravessamento, mas que também se recuse a sair do lugar estúpido em que foi forjado. um luto político dessa monta é inegociável. não para permanecer na dor, mas, ao nos fazer padecer da estupidez que o inaugura, para nos lembrar que ela não pode ser contornada indiferentemente. apenas a mobilização e a produção pública dessa estupidez inelutável pode transformá-la em instrumento – de luta e de luto.

O amor é uma flor frouxa

Que brota, cresce, às vezes morre

Na fértil seara de corações trouxas

 

Somos todos trouxas, menos você

Com coração mais sagaz

Da ironia rapaz

E as pernas sempre abertas em V

 

A estultícia é aprazível a quem se lhe entrega

Disso bem sabem os espertos ferinos

Mas, da dor e da partilha alheia inquilinos,

Sequer alcançam o jogo dessa gente brega

 

Pra você da arquibancada, jogando ovo,

Vaiando, aqui proponho (resta-um) um jogo:

Palma da mão olhando

Das laterais ao centro, em pares, dedos guardando

 

Larga de ser cuzão

Amor tem regra não

Cabe muita alegria e tesão

“quem muito se evita, se convive”

João Guimarães Rosa, “Grande Sertão: Veredas”

as imagens do que é leviano, bruto, violento, estúpido, horrível, brutal, bestial, do que ultrapassa a ordem do classificável – nessa sequência e escala – coabitam conosco. essas imagens, não apenas por serem o que são (imagens), mas pelo modo desenfreado como são, nos atravessam sem que possamos segurá-las, canalizá-las. o enfrentamento desse impalpável bestiário contemporâneo que faz de um monstro um mito (e pouco, aliás, deveria nos surpreender a proximidade ontológica entre os dois) exige pois um contraimaginário que nem sequer conseguimos estabelecer.

nos debatemos, impotentes (porque provavelmente esta seja uma falsa questão), diante do fato de que nossas gerações não conviveram com os horrores da ditadura, do nazismo, do fascismo, do escravismo, da dominação sobre as mulheres, da sociedade disciplinar. a questão não é, em rigor, falsa; mas a falseamos quando levantamos os ícones passados como respostas efetivas à persistência do mal, essa sempre presente. não me parece, pois, que estamos diante de um retorno do passado stricto sensu, mas da continuação de uma história que não passou e não cessa de permanecer. mas os ícones passados, as respostas simbólicas e políticas que conseguiram um dia resistir e derrubar, mesmo que provisoriamente (eis a triste constatação), o aberrante – os ícones passados são monumentos que não mais podemos reativar com expectativa de efetividade.

enquanto chico buarque seguir sendo o herói do presente, estaremos fadados ao fracasso. num mundo em que certas imagens têm uma intolerável ainda que sustentável leveza de ser, a história exige de nós a compreensão do que é líquido e aéreo: contra a resiliência da desrazão diante de todos os argumentos, será preciso armar-se do imaterial e do que, num sentido diferente, não opera no registro do racional.

contra a atual crueza do abominável, da hybris que se instala insensivelmente entre nós e em nós, outro logos é preciso. partindo da razão, mas estirando-se para além dela e para longe das experiências bem sucedidas do passado. numa sociedade em que os únicos símbolos potentes são os do mito aniquilador, é preciso sair do nomadismo coletor e passar ao cultivo do futuro.

no entanto, aqueles que se perdem na acumulação e com a iconofilia do passado, cuja densa materialidade já não mais pode nos salvar, apenas ignoram que as presentes gerações trabalham com a leviandade que lhes é particular. o passado, se apropriado, só será efetivo quando passar a operar no registro do presente. (e essa não é uma demanda ou preciosismo de historiador, que não sou. isso é um limite ontológico de nosso tempo que, não reconhecido, não cessará de nos colocar em convívio com a monstruosidade.)

 

há uma forma difícil de temporalidade, que é a do passado* que retorna invertendo papéis, subvertendo relações, e diante do qual é possível agir de diferentes formas.

 

1) com culpa – quando compreendemos erroneamente o retorno como quitação de dívida, como karma, como responsabilidade, como necessidade de resolução de algo que supostamente não foi encerrado;

2) com ironia – debochando do retorno, desviando de compreendê-lo e amá-lo, desprezando-o como oportunidade de reconciliação;

3) com narcisismo e autoengano – projetando-nos no retorno deformadamente, olhando-nos em espelhos d’água que vibram à menor mirada e que nos dão a imagem turva de não termos sido aquilo que retorna;

4) com alegria – acatando sua presença como possibilidade de exercício de saúde, de aumento de potência e de intensidade, de conhecimento das profundezas das perspectivas alheias, de ascensão.

 

como doem, como ferem essas reações! como fazem adoecer, padecer a carne e o espírito!… porém, somente a ingenuidade da última é que anestesia e regenera. somente ela, a mais difícil, convalesce.

 

 

 

 

*falo do passado existencialmente suportável, não o passado hediondo ou que assuma a forma, qualquer que seja, de uma hybris: diante de um retorno como esse, talvez não seja possível a aceitação livre do amor fati, talvez o tempo esteja condenado ao ressentimento, ao trauma – eis um possível limite existencial que não devemos pensar como transponível, esse que é a experiência do tempo inelutável.

“Quando penso na alegria voraz com que comemos galinha ao molho pardo, dou-me conta de nossa truculência. Eu, que seria incapaz de matar uma galinha, tanto gosto delas vivas mexendo o pescoço feio e procurando minhocas. Deveríamos não comê-las e ao seu sangue? Nunca. Nós somos canibais, é preciso não esquecer. E respeitar a violência que temos. E, quem sabe, não comêssemos a galinha ao molho pardo, comeríamos gente com seu sangue. Minha falta de coragem de matar uma galinha e no entanto comê-la morta me confunde, espanta-me, mas aceito. A nossa vida é truculenta: nasce-se com sangue e com sangue corta-se a união que é o cordão umbilical. E quantos morrem com sangue. É preciso acreditar no sangue como parte de nossa vida. A truculência. É amor também.”

clarice lispector: uma aprendizagem ou o livro dos prazeres 

marejados são meus dias, e também frios e salgados a curtir o difícil aprendizado da violência que me compõe. impiedade sem remédio, sem escolha, e que deveria também ser sem culpa. mas é sem cúmplice, de fato: alegria sem partilha. alegria tormentosa, como já disse deleuze, como fez cantar gesualdo. dolorosa gioia, amor fati que se ensina pela via da intromissão.

assim aparam-se, não sem custo, estas arestas que me aguçam ainda o faro para um passado tão perdido quanto hoje ofuscado. não porque fardo, mas porque – passado.

hoje, digo com estranha leveza:

passa, passa, passa. passa que não te cabe mais uma ode. mas passa e me deixa ver ao menos uma vez que o que te faz cair, não por acaso ou premeditação, mas por destino, me eleva a galáxias inauditas. “luz-balão” que não te alumiou nem fez voar. veneno, mas não a mim.

afirmar, afirmar, afirmar. repetir a afirmação apenas como resistência à fraqueza, como exercício de força contra a impotência. e, então: repetir, repetir, repetir. 

 

– até ser possível esquecer.

por uma História alegre, mesmo que sem reconciliação, mesmo com tantas lacunas das palavras passíveis de emergirem e as circularidades infinitas de mil cascavéis engolindo-se pelos próprios guizos, mesmo com as errâncias, com os projetos inconclusos – que, não me iludo, permanecem em andamento até que um dia a paz nos assente. alegria, alegria!, mesmo que não seja possível o contentamento, a satisfação. alegria!, alegria sobretudo: alegria para suportar o que, do passado, nos dá possibilidade de porvir.

 

(alegria ignora, aliás, passado, presente e futuro. alegria atravessa o plano da existência em direção ao infinito. é, por isso, horizonte puro, possibilidade de ser mais que subsistência e reminiscência. alegria elocubra as neuroses – e, justamente por isso, é o maior dos riscos.)