Saltar a navegação

Category Archives: Meus Karmas

Afundado em mim, como num buraco-negro, apenas um ódio ainda figurava aqui: não o teu contorcionismo, nem teu contorcionismo retórico, e sim essa praga, quase inominável, insuportável, IM-PER-DO-Á-VEL.

Apenas teu anglicismo horroroso para me injetar algum ânimo no peito e me fazer levantar da cama.

Anúncios

Acordei em susto porque estávamos no meio de uma pequena crise doméstica. A ironia é que a realidade imite os sonhos.

Ao fim do meu primeiro ano de mestrado, o que me fez suportar o ano final, de dedicação à minha pesquisa, foi interromper todo o processo de trabalho acadêmico para me dedicar momentaneamente à escrita poética e à minha atuação artística. Parece que estou atravessando novamente esse processo: embora meus dedos já não mais pareçam dispostos a colaborar profissionalmente ao piano, há acolhida numa escrita “literária” como exercício da distração, ou melhor, da des-tração. Des-tração que é, em parte, des-travar, mas principalmente um des-traçar. Sendo impossível desescrever, voltar ao ponto zero de uma primeira escrita, resta a tarefa de permanecer na escrita fazendo seus traços tropeçarem em seus pés. Caminhos traiçoeiros nos quais reaprendo a confiar.

Pela segunda noite seguida, sou invadido por tantos sonhos que mal suporto dormir. Há um poço, aparentemente sem fundo, de desejos vindo à tona. Há um poço desejante, mas há também um posso desejante, uma afirmação de que a angústia de desejar apenas me alerta para que eu ainda tenho nos desejos um campo possível, em aberto.

Na maré noturna, apareceste a mim, C. Desejo inexistente, impossível, imaterializável exceto pelo sonho. Dizias-me em carta (uma carta dentro de um sonho, como se dentro de uma garrafa, vindo de um tempo indefinível): te quero, mas dê-me tempo, ainda não sei que fazer do meu desejo senão te pedindo calma. Essa inquietude alegre dos amantes me apazigua. Que tenha existência onírica, isso não importa. Os sonhos tornam belas as impossibilidades, tornam digno o desejo impossível, não para perder-se no sonho, mas para não perder-se do sonho.

Amamo-nos por uma noite, C., como nunca nos seria lícito ou concedido. Não importa que tenha sido apenas um sonho e que somente em sonho isso tenha sido possível e desejado (como é o caso. Certo?). Não importa que esse desejo nunca se realize (posto que não é real. Certo?). (Enquanto escrevo, pareço sonhar, pois as certezas vão se turvando, vão se curvando ao fluxo das palavras…) Esse impossível que me assalta agora, o mesmo que me ligou impossivelmente a ti, faz-me ver que ele é um campo a ser produzido e trabalhado, e não apenas uma fatalidade imbecil contra a qual devo lutar.

A placidez diante do impossível…

Por mais que já tenhas me ouvido à exaustão, empresta-me uma vez mais a paciência para que eu te diga o que ainda não.

Tenho-me havido comigo mesmo, a sós. Tribunal de mim. Que foi feito do que eu era? Piso e repiso esta pergunta como fosse areia mole, apenas para nela me afundar sem respiro. Que história darei de mim quando chegar a hora? Qual meu testemunho?

Tantas coisas ocas, timbres foscos que mal servem a tamborilar minha angústia em algum passo menos stretto. Olho para o que há não muito fui, como o espírito que olha de sobrevoo o corpo do qual acaba de se desligar. Quem é este que se desliga? Que me desligo? E nesse estranhamento o que passou, sem solenidade nenhuma, cospe apenas a impertinência de sua inércia muda. Não adianta interrogar o corpo morto, a sombra, a ressaca: esses recuos são puras negatividades, puras negações também a quaisquer questionamentos.

Dizem não, não, não, não. Sem sequer dizerem coisa alguma.

Já vais? Não podes aguentar um pouco que seja? Que seja.

Aguardo sem saber bem por quê. Talvez como quem espera Godot. Talvez como quem espera Godot sem saber que espera. Nem que o espera.

Quando assanho, ou tento, essas minhas imagens passadas, na verdade busco álibis para os crimes que cometi e cometeram em meu nome. Gostaria de me justificar, de me usar a mim como escusa para as monstruosidades de que sou capaz. Embora apenas ocasionalmente as tenha cometido. Gostaria de ter em minhas imagens, meus reflexos borrados… gostaria de ter presenciado… não sei, ao menos que me dispensassem um interrogatório sem termo. Isso: que eu os pudesse projetar em tela ampla, desprovidos de som, imagens puras, presença pura da imagem que não precisa dizer, somente aparecer.

Espero ainda esse passado que não vem. Mas desconfio que virá como fantasma: barulhento com suas correntes, inafetável, incessante, derradeiro. Espírito puro, oco como a única história que poderei forjar: história sem memória, não por falta desta, mas por seu excesso.

Não me ouves mais. Partiste. Talvez encontres meus vestígios em teu caminho. Estes vestígios que tanto procuro. Mas, se encontrares algum, te peço: enterra-o, tira-me da vista o que quer que eu tenha deitado por aí. Aquilo que tanto espero, eu sei, não existe, mesmo que seus fragmentos estejam à espreita. Enquanto os espero, eles não vêm, e também não me assombram. E também não me deixam lembrar: pensando bem, no tribunal não saber, não ter nenhum relato a dar, ao menos pode ser algum indício de inocência…

, pois há dias, Roberto, em que o peso pesa, em que não é possível um disfarce ou amenidade qualquer, por exemplo, um sorriso protocolar. Em alguns deles, escrevo, pois, se não me alivia esse fardo, ao menos é um jeito de segurá-lo com menor incômodo. Mas outras vezes nada resta senão padecer e esperar, não sei bem como nem o que, só padecer e esperar. Sabes bem que essa espera é física: Atlas suportou o insuportável sobre os ombros, deu seu corpo em sacrifício como rival de um Cristo. A espera é sempre aplicada sobre a carne e os ossos: é o estômago revolto, os olhos e mandíbulas apertadas, a garganta entalada. O peso não é uma metáfora psicológica, é uma sensação mesmo. Mas, sabes, Roberto, nessas horas me lembro das madrugadas enfumaçadas na tua sacada, quando eu, mais jovem e leve, apenas padecia a brisa e a calada da cidade de madrugada. Padecer esse frio e esse silêncio, incorporar esses ocos sem resistir, tantas vezes isso me falta embora seja um alento. Quando os cigarros escasseavam e as garrafas secavam, quando já estávamos embriagados de sono, nicotina e álcool o bastante para insistir em nossos dramas menores, a noite ocupava aquele espaço estreito, não da tua antiga sacada, mas de nossos peitos, e nos convocava a escutar o assovio do vento frio a passar entre as frestas apertadas de dentro. Esse assovio frio, meio fantasmagórico, embora pouco aliviasse, nos sacudia e lembrava o quanto de vida ainda havia por descobrir e plantar. Nessas horas, Roberto, eu me transportava para longe estando ali ao teu lado e ao de outros, e nesses instantes alguma coisa se passava que até hoje continua a passar aqui. Quando o peso de existir, como é o caso de agora, se torna tão insuportável e me esgana, eu assovio por dentro aquelas brisas, mimetizando um espaço-tempo que não volta, mas que também nunca se foi. Mesmo sabendo ser vã a estratégia, o som sombrio daquele tempo de algum modo me conforta o corpo. Talvez porque me abrace esse lado soturno, ou porque, ao menos, lembre que meu corpo ainda pode alguma voz mesmo quando não consiga falar.

que palavra agora?, quando todos se fartaram da minha lógica da minha bela fala concatenada explicada amainada plana e translúcida?, se viver no regime da explicação é suplício e se não me esgota?, se sequer tem serventia ou pausa ou soberania?, se me ata desata ata desata ata até que não sobre um fio em que me agarre?, em que me aninhe?, ou possa doer em paz?

que silêncio agora?, quando ele me sufoca burburinhos mesquinhos?, me soca seco e surdo o estômago?, e não sobe a garganta senão para retorcê-la internamente?

há ainda um som silente?, um som que nada diga e apenas soe?, que não contorça e só vibre?, sem pedir nenhuma razão em troca?

nem mesmo a do silêncio?

tantos anos acostumado aos cubos e cubículos, à falta de ventilação, à janela fechada, fazem esta sacada – ela mesma cubícula, semijaula que finge avançar para o espaço aberto da cidade ao redor – parecer um píer (ainda que para fora do oceano de inquietações que afogam por dentro do apartamento e do peito).

há uma forma difícil de temporalidade, que é a do passado* que retorna invertendo papéis, subvertendo relações, e diante do qual é possível agir de diferentes formas.

 

1) com culpa – quando compreendemos erroneamente o retorno como quitação de dívida, como karma, como responsabilidade, como necessidade de resolução de algo que supostamente não foi encerrado;

2) com ironia – debochando do retorno, desviando de compreendê-lo e amá-lo, desprezando-o como oportunidade de reconciliação;

3) com narcisismo e autoengano – projetando-nos no retorno deformadamente, olhando-nos em espelhos d’água que vibram à menor mirada e que nos dão a imagem turva de não termos sido aquilo que retorna;

4) com alegria – acatando sua presença como possibilidade de exercício de saúde, de aumento de potência e de intensidade, de conhecimento das profundezas das perspectivas alheias, de ascensão.

 

como doem, como ferem essas reações! como fazem adoecer, padecer a carne e o espírito!… porém, somente a ingenuidade da última é que anestesia e regenera. somente ela, a mais difícil, convalesce.

 

 

 

 

*falo do passado existencialmente suportável, não o passado hediondo ou que assuma a forma, qualquer que seja, de uma hybris: diante de um retorno como esse, talvez não seja possível a aceitação livre do amor fati, talvez o tempo esteja condenado ao ressentimento, ao trauma – eis um possível limite existencial que não devemos pensar como transponível, esse que é a experiência do tempo inelutável.

o que pode um corpo? o que pode o corpo que te quer diminuir a potência? o que pode teu corpo diante dele?

 

poder diminuir sua potência apenas para poder elevá-la em seguida – isso é saúde e maturidade no homem capaz.