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Category Archives: Meus truques

O amor é uma flor frouxa

Que brota, cresce, às vezes morre

Na fértil seara de corações trouxas

 

Somos todos trouxas, menos você

Com coração mais sagaz

Da ironia rapaz

E as pernas sempre abertas em V

 

A estultícia é aprazível a quem se lhe entrega

Disso bem sabem os espertos ferinos

Mas, da dor e da partilha alheia inquilinos,

Sequer alcançam o jogo dessa gente brega

 

Pra você da arquibancada, jogando ovo,

Vaiando, aqui proponho (resta-um) um jogo:

Palma da mão olhando

Das laterais ao centro, em pares, dedos guardando

 

Larga de ser cuzão

Amor tem regra não

Cabe muita alegria e tesão

[prefácio

 

estes dias, ápice de minha produção acadêmica até então, têm-me feito lembrar de um exemplo dado por uma professora de biologia do segundo grau (professora que sempre detestei, mas o exemplo é imagético o bastante para ser citado): certas árvores, como algumas laranjeiras, quando estão por morrer, danam a produzir frutos. e hoje cedo, após ontem, após um longo ontem que foi a chegada da viagem a ribeirão preto no dia 10, é como se a última laranja tivesse se espatifado no chão seco, árido, laranja besta que espera semear o chão insípido, impróprio, laranja impertinentemente doce e esperançosa. (e aqui não se trata de recusar a esperança ou o que me é deserto e cerrado, mas de confiar no impasse de não saber se brotará algo ou se a laraja se espatifa em vão. confio no impasse, sei que ele não é aniquilamento, só é um nó que, independente de ser desfeito, me põe adiante neste momento.)

 

estes dias, ápice de minha produção acadêmica, têm-se resumido a: resumir. curiosamente o resumo é a mais poderosa ferramenta argumentativa da minha dissertação. e estranhamente o que é resumo vira argumento, e vira criação, e deixa de ser resumo.

 

esse procedimento todo torto é o contraponto e o espelho daquilo que estou resumindo: como a história da música é uma história do espaço, das linhas, retas, planos, superfícies. uma história cujo inventário malfeito parece uma lenta progressão, progressista ou circular, das formas, das técnicas, do surgimento de gênios e do soterramento paulatino de compositores ditos menores. a história da música é uma grande topografia, de fato, mas é igualmente uma topologia extremamente capenga de como uma determinada figura conhecida como tradição musical ocidental teria se constituído ao longo de um lapso de tempo mais ou menos determinável.

 

sendo assim, a desterritorialização que opero nos resumos é paralela à desterritorialização que tento operar nessa historiografia ou (como prefiro pensar) topografia, já traçada, assente, tão consciente de si que não pode se converter senão em si mesma, mas não no sentido da eterna repetição que foucault reconhece na linguagem moderna; no sentido, antes, da eterna repetição do que não foi dito, no desvio daquilo que não é trazido à tona, mas eternamente soterrado pelo excesso de repetição e de palavras. freud, ricœur e nietzsche chamam isso de recalque. hoje em dia, chamo simplesmente (e estrategicamente) de incompetência ou impertinência arqueológica. por isso a necessidade de desterritorializar: parar com o soterramento, tornando o resumo dessa topografia uma topologia (que faz o resumo deixar de ser resumo).

 

(e me dá um certo alívio poder, aqui, escrever isso, uma certa angústia que não deixa de soar, mas já não me ensurdece; ao contrário, porque soa menos é que posso, enfim, escutá-la novamente. a angústia, sim, tem seu limite de audibilidade: nem mais, nem menos. e também me alivia, estranhamente, poder contar com a linguagem para não querer dizer nada, mas simplesmente desabafar, no sentido quase literal de tirar do abafamento, menos do que de confessar. essa linguagem, como foucault bem fala dos quadros de klee, que não quer dizer nada, que não tem compromisso com a significação, que mata kafka.)

 

mas, para dar tempo a essa laranja esbugalhada, a essas tentativas desesperadamente esperançosas, é necessário voltar-me a outras coisas, menos sutis, menos diáfanas, menos voláteis e volúveis. por isso, segue o que segue. (uma tautologia é sempre um alívio, especialmente nestes dias em que me deparo o tempo todo com o fato de que o óbvio não é assim tão óbvio. a tautologia previne o paradoxo, e disso não se deve pensar que se trata de uma resistência ao pensar; ao contrário, é às vezes uma ousadia.)]

 

dos facebookers (homens) micareteiros descamisados

 

é preciso tanto desapego, excesso ou umbigo de si mesmo, que subitamente eles me causam interesse, me despertam a atenção para outro tipo de pretensão, que não é impotente, que não é uma ruminação interminável de conceitos. o corpo exposto é, às vezes, o que mais se aproxima da imagem do círculo. resta saber – e a questão ficará aberta, pois não tenho o mínimo interesse em responder – se se trata, de minha parte, de um fascínio invejoso de quem não pode ter essa experiência do círculo umbilical, ou se este tipo de exposição e a potência que ela indica não são limitadas a uma simples exposição (se ela é superficial num sentido pejorativo).

 

ou então – teceira hipótese, com certa dose de esperança – se tudo isso está malposto e o que está em jogo é outra coisa…

estou tão desviante que já me é vetada, a priori, a possibilidade de fazer “filosofia”, que é algo, na verdade, absolutamente liberador do gesto. e de vida. e ar fresco.

Ich habe bin an etwas gedacht.

(a respeito de tragos)

 

meu blog, em 2008, foi um acontecimento paralelo. iniciou tipo janeiro-com-muitas-esperanças-e-expectativas, promessa de possibilidades mil, e acabou fodendo com a diferença. então, em 2009, pensando sobre o ímpeto e, em particular, os modos de escrever, algo aconteceu. é que tem alguma coisa muito incrível nisso de se ver se reescrevendo assim ao se ver se escrevendo enquanto estou reescrevendo e vendo etc. etc. ad libitum/infinitum. um bumerangue, depois de muito tempo, voltando à minha mão. repensar o impulso dos dizeres atônitos de formas, mais puros e permeáveis de diálogos com o mundo. de repente, novamente, deu vontade de poetar. simples assim. sem apuro.

poesia pra mim é as diferentes formas de se prolongar o esmero. gosto de pensar assim. é o jeito que eu arrumei de desalinhar a concordância do ser, é o jeito de arrumar o ser em desalinhâncias. que, afinal, ser é pra se turvar mesmo.

enfim, as formalidades, os formalismos, os experimentos com formas, as geometrias, os prédios, todo lo que me encanta e quiero mucho: converti sintaxe em sonoridades e atingi novas semânticas. subversão. intencionalmente, digo, porque eu curto muito tirar onda. discretamente, claro. acho bonito. e isso é uma das construções mais fantásticas, justamente pela loucura que ela cria. é quase um soluço não sentido.

a poesia acabou? e isso seria por acaso motivo de desespero?

– para o forte, o final nunca é – ruína.

(ou: “ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão“.)

antes de mostrar o fato, a explicação: pura implicância lingüística. não dá, simplesmente NÃO DÁ para ficar inerte diante de uma canção que pergunta “aonde está o meu Senhor?”.

“Decidir não dar ouvidos aos melhores contra-argumentos: vontade de ignorar, mas como um ocasional sinal de caráter forte.”

estou de saco cheíssimo de me sentir testado. quero que se fodam você e sua pretensão de me pegar num deslize discursivo. não se dê ao trabalho de me testar: eu mesmo deslizo sozinho, basta observar de longe e rir sem fazer nada. não é necessário me expor: teu prazer pode ser satisfeito em casa, observando tão-somente. com direito a pipocas e vista de camarote.

e sabe por que isso acontece? porque eu tenho a liberdade de não ter que ser coerente.

(ou: “é melhor ficar longe, para sempre.”)

e, se insistes nos testes, perdes o teu tempo: não vou me comportar mais ou menos coerentemente com ou sem eles.

(ou: “da distinção social e das coisas sidas que hoje seriam condenadas pelos outros”)

será que para me distinguir, além do esmero com a escrita, terei que amar o bush, mandar “beijo no coração”, voltar às telenovelas, virar kantiano, centro-direitista, defender o “sertanejo” (e ponha-se aspas nisso!), entender a vera fischer e o joão gilberto, comprar a discografia do zeca pagodinho, achar que a moral se perdeu e que é necessário fortalecer as bases sólidas da educação familiar nos moldes TFP, dizer que mozart envenenou SIM o salieri!, será, meu deus, será que terei que virar católico renovado carismático e amar o papa!, virar vegetariano ou o contrário, achar que a melhor aquisição da ABL foi o paulo coelho, aderir à semiótica peirceana, assinar a veja, será??

meu deus, onde é que foram parar os ideais de aristocracia? talvez eu sinta uma saudade, típico bucolismo de quem nunca foi ao campo (semelhante ao parnasianismo – esses brasileiros falando de musas, que coisa singular… – e isso porque dizem que a pós-modernidade começou no século XX. “aham. sei.”), talvez eu tenha essa saudade disso que eu chamaria de belle époque em que ao menos eu poderia achar facilmente uma diferença entre um homem distinto e essa massa de destintos que é “formadora de opiniões”. sim, porque o jô soares e o arnalado jabor não são homens inteligentes, o pedro bial não é simpático, a glória maria não é uma boa apresentadora (além de sempre errar feíssimo no figurino – aliás, o zeca camargo deveria intervir mais às vezes…), o gilberto mendes não é a panaceia, um saramago ou um garcía márquez não merecem um nobel mais do que um joão guimarães rosa, não, não e não.

enfim, há que se garimpar qualquer distintivo ou insígnia. existe um abismo entre alguém que odeia o bush e alguém que odeia o bush. mas a pós-modernidade, essa invenção retrógrada, reacionária e neoburguesa, nos (a quem, afinal?) fez o grandessíssimo favor de acabar com tudo isso.

então eu digo amém e me calo, que falar ou não falar é mera questão de escolha, ou jogos de poder, ou jogos de linguagem, ou de decisão, ou de criação, ou de qualquer teoria que sustente um discurso. mas isso é moderno, eu sei. e não é isso que, de uma forma ou outra, mantém o pós-moderno em pé?

o que põe em xeque-mate o próprio “pós” do termo em questão.