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Category Archives: Tamagoschi

Afundado em mim, como num buraco-negro, apenas um ódio ainda figurava aqui: não o teu contorcionismo, nem teu contorcionismo retórico, e sim essa praga, quase inominável, insuportável, IM-PER-DO-Á-VEL.

Apenas teu anglicismo horroroso para me injetar algum ânimo no peito e me fazer levantar da cama.

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Pela segunda noite seguida, sou invadido por tantos sonhos que mal suporto dormir. Há um poço, aparentemente sem fundo, de desejos vindo à tona. Há um poço desejante, mas há também um posso desejante, uma afirmação de que a angústia de desejar apenas me alerta para que eu ainda tenho nos desejos um campo possível, em aberto.

Na maré noturna, apareceste a mim, C. Desejo inexistente, impossível, imaterializável exceto pelo sonho. Dizias-me em carta (uma carta dentro de um sonho, como se dentro de uma garrafa, vindo de um tempo indefinível): te quero, mas dê-me tempo, ainda não sei que fazer do meu desejo senão te pedindo calma. Essa inquietude alegre dos amantes me apazigua. Que tenha existência onírica, isso não importa. Os sonhos tornam belas as impossibilidades, tornam digno o desejo impossível, não para perder-se no sonho, mas para não perder-se do sonho.

Amamo-nos por uma noite, C., como nunca nos seria lícito ou concedido. Não importa que tenha sido apenas um sonho e que somente em sonho isso tenha sido possível e desejado (como é o caso. Certo?). Não importa que esse desejo nunca se realize (posto que não é real. Certo?). (Enquanto escrevo, pareço sonhar, pois as certezas vão se turvando, vão se curvando ao fluxo das palavras…) Esse impossível que me assalta agora, o mesmo que me ligou impossivelmente a ti, faz-me ver que ele é um campo a ser produzido e trabalhado, e não apenas uma fatalidade imbecil contra a qual devo lutar.

A placidez diante do impossível…

o que pode um corpo? o que pode o corpo que te quer diminuir a potência? o que pode teu corpo diante dele?

 

poder diminuir sua potência apenas para poder elevá-la em seguida – isso é saúde e maturidade no homem capaz.

estar contigo, potência bruta brotando na carne. independentemente dos finais momentâneos, das intermitências ocasionais: mesmo nossas lacunas são atualizações do infinito.

para tanto, é preciso resistir à melancolia, desacelerador de partículas.

estar contigo, devir contigo: exercício de alegria, ultrapassagem da velocidade da luz.

a cada cessação nossa, o devir reduz-se à velocidade da formação de estalactites. lentidão que prolonga a alegria, mas também abre fendas no tempo, grades de arame esburacadas, farpadas, que não ousamos ultrapassar e que nos assaltam com seus-nossos tédios-melancolias.

 

é preciso perder a espera. é preciso outro afeto, mais elevado, de potência maior, que seja um exercício-forma da alegria: gratidão.

minhas lembranças, trato-as como vitrais, com o esmero com que preservamos as amálgamas delicadas de nossas existências pregressas. predominam sempre as translúcidas plaquetas verdes, azuis e róseas, que são, mantendo seu caráter de transparência, aquelas que mais podem vitrificar cálidas e alegremente frias as lembranças que me alentam. isto me aquece, ma non troppo – eis o sucesso.

 

mas as tuas lembranças, sobretudo a forma de persistência do passado (é uma presença entrecruzada com outras presença?, é uma sequela?, é um signo?, é um acidente, um recalque ou um labor?), como poderia eu, tão acostumado a mim, tão ingenuamente (talvez convenientemente) crente na minha estrita(?) separação entre desejo (presente) e amor (extratemporal), como poderia eu admitir o aldilà que é direito teu (caso ele exista. pois também é direito não velar e zelar memórias privadas, memórias de dois, familiares – depois disso, o trabalho é da comissão da verdade)? e é uma pergunta provocativa, difícil, pois, a mim, exige uma nova metodologia em relação ao passado que não é meu, e que talvez não me toque. mas que eu poderia sentir, que está implícito, e que, de uma forma ou outra, molda a minha presença e o meu presente.

 

está tudo fora de hora e de ordem. agora é tempo de ser presença e presente. é tempo dessa vivacidade fugaz, dessa inquietação, do prazer matinal, da alegria inquieta e dançarina de uma simples – presença. talvez (mais uma dentre várias inquietações e dúvidas) seja esse tom de alegria que deva pautar também o porvir. talvez só haverá porvir enquanto alegria, pois a tristeza não só é peso e caída (existencialistas) ou diminuição de nossa potência (spinoza-nietzsche-deleuze), não é apenas uma verticalidade oceânica. ela, assim como a a alegria, também se desdobra num horizonte, com os lados e a ilusão de profundidade característicos de toda disposição horizontal. mas, diferentemente da alegria, a tristeza é cessação de movimento, de futuro, poça rasa incapaz mesmo dessa ilusão.

 

alegria é, voltemos a ela, o que torna tudo possível. os existencialistas estavam errados, graças a deus. mas podemos agora pedir a conta, ir para casa e dormir em paz? jamais: a alegria exige disciplina, porque não é um afeto, mas uma prática.

 

hoje fiz este exercício para ti. para vós. para o mundo. para mim. e, sobretudo, para ninguém. fiz esse exercício de alegria que é a gratidão absoluta, instransitiva. que é a luz que projeto e atravessa os cristais de memória que velo.

 

eles, na verdade, não me aquecem. eu que me aqueço para suportar com alegria sua permanência louca, improvável e recorrente.

acabou o tempo da mornidão. acabou a tranquilidade forjada, acabou a alísia e macia superfície de pelúcia dos dias encadeados.

só não se sabe ao certo o que começa. mas basta um desvio, um leve descentramento, uma leve flutuação, quaisquer que sejam, para que brote aí uma possibilidade.

“possibilidade!” bradava deleuze para não enlouquecer. eu, menos famoso e mais hiperbólico, mais cartesiano e menos animal, mais polido, melancólico, civilizado, mas também recém-saído da medianidade de um cotidiano perdido, convalescente – eu, homem, digo “possibilidade!” como quem tece um lamento.

basta uma oscilação mínima para o possível vir. enquanto isso, puxo aleatoriamente cartas de um baralho de tarô, apenas pelo prazer de embaralhar tudo novamente e de traçar uma estatística das recorrências: das cartas aparecendo, da minha forma de embaralhá-las e observá-las. (é que, quando vier a possibilidade, quero ter de que me despojar.)

ao sujeito confessional, ao homem cujo umbigo é a via natural de relação com o universo, que é o buraco-negro para onde todos os demais universos são arrastados e dissimulados, parece uma afronta, até mesmo uma  franca crueldade compreender e amar (amor fati) que os signos: sejam, por natureza, irreversíveis; se dispersem em séries autônomas que se cruzam com outras séries a esmo; que não se pode controlar ocasionais encontros multisseriais que os núcleos subjetivos – menores que os signos que os atravessam – gostariam de vetar; não tenham origem, nem mesmo humana, mas cuja forma de existência é simplesmente atravessar as existências e os espaços.

o signo é irreversível, multidirecional e entrópico. e, além disso e mais importante que isso, é anônimo – o signo é o golpe derradeiro contra o narcisismo.

1. a tese provocativa de diferença e repetição, com a qual deleuze explode ou, no mínimo, instaura um campo minado para as tentativas representacionistas, me faz pensar, de novo, no poder. repetir que poder – sobretudo na forma feminina “possibilidade” – é substantivo antes de verbo.

 

2. a alegria é violenta e não abre concessões: poder pensar, poder saber, poder determinar, poder refazer tudo de cabo a rabo – tudo isso, se insistentemente repetido, é o grau alto da minha potência. (o grau mais baixo, aquele do confessionalismo, do murmúrio, do resmungo, reservo aos idos de 2006.)

 

potência, potência, febrilar com essa palavra! – a ponto de, talvez pela primeira vez neste blog, uma exclamação ser possível.

 

repetir: potência!, e fazer devir potência. e, com ela, arrastar seus bichos de estimação(: esquecimento, verticalidade de ânimo, liberação dos signos, das máquinas, dos gestos) para que germinem terremotos epiteliais. tornar a superfície lisa, em que tudo dance. mas com bordas: limites da angústia.

 

3. eis, aqui, o encerramento de uma temática anterior: a angústia soa, mas não é capaz de promover dança. só faz reproduzir a singularidade do nada, que é, talvez, a única singularidade que se deve pôr de lado. do lado de fora da existência sã.

[prefácio

 

estes dias, ápice de minha produção acadêmica até então, têm-me feito lembrar de um exemplo dado por uma professora de biologia do segundo grau (professora que sempre detestei, mas o exemplo é imagético o bastante para ser citado): certas árvores, como algumas laranjeiras, quando estão por morrer, danam a produzir frutos. e hoje cedo, após ontem, após um longo ontem que foi a chegada da viagem a ribeirão preto no dia 10, é como se a última laranja tivesse se espatifado no chão seco, árido, laranja besta que espera semear o chão insípido, impróprio, laranja impertinentemente doce e esperançosa. (e aqui não se trata de recusar a esperança ou o que me é deserto e cerrado, mas de confiar no impasse de não saber se brotará algo ou se a laraja se espatifa em vão. confio no impasse, sei que ele não é aniquilamento, só é um nó que, independente de ser desfeito, me põe adiante neste momento.)

 

estes dias, ápice de minha produção acadêmica, têm-se resumido a: resumir. curiosamente o resumo é a mais poderosa ferramenta argumentativa da minha dissertação. e estranhamente o que é resumo vira argumento, e vira criação, e deixa de ser resumo.

 

esse procedimento todo torto é o contraponto e o espelho daquilo que estou resumindo: como a história da música é uma história do espaço, das linhas, retas, planos, superfícies. uma história cujo inventário malfeito parece uma lenta progressão, progressista ou circular, das formas, das técnicas, do surgimento de gênios e do soterramento paulatino de compositores ditos menores. a história da música é uma grande topografia, de fato, mas é igualmente uma topologia extremamente capenga de como uma determinada figura conhecida como tradição musical ocidental teria se constituído ao longo de um lapso de tempo mais ou menos determinável.

 

sendo assim, a desterritorialização que opero nos resumos é paralela à desterritorialização que tento operar nessa historiografia ou (como prefiro pensar) topografia, já traçada, assente, tão consciente de si que não pode se converter senão em si mesma, mas não no sentido da eterna repetição que foucault reconhece na linguagem moderna; no sentido, antes, da eterna repetição do que não foi dito, no desvio daquilo que não é trazido à tona, mas eternamente soterrado pelo excesso de repetição e de palavras. freud, ricœur e nietzsche chamam isso de recalque. hoje em dia, chamo simplesmente (e estrategicamente) de incompetência ou impertinência arqueológica. por isso a necessidade de desterritorializar: parar com o soterramento, tornando o resumo dessa topografia uma topologia (que faz o resumo deixar de ser resumo).

 

(e me dá um certo alívio poder, aqui, escrever isso, uma certa angústia que não deixa de soar, mas já não me ensurdece; ao contrário, porque soa menos é que posso, enfim, escutá-la novamente. a angústia, sim, tem seu limite de audibilidade: nem mais, nem menos. e também me alivia, estranhamente, poder contar com a linguagem para não querer dizer nada, mas simplesmente desabafar, no sentido quase literal de tirar do abafamento, menos do que de confessar. essa linguagem, como foucault bem fala dos quadros de klee, que não quer dizer nada, que não tem compromisso com a significação, que mata kafka.)

 

mas, para dar tempo a essa laranja esbugalhada, a essas tentativas desesperadamente esperançosas, é necessário voltar-me a outras coisas, menos sutis, menos diáfanas, menos voláteis e volúveis. por isso, segue o que segue. (uma tautologia é sempre um alívio, especialmente nestes dias em que me deparo o tempo todo com o fato de que o óbvio não é assim tão óbvio. a tautologia previne o paradoxo, e disso não se deve pensar que se trata de uma resistência ao pensar; ao contrário, é às vezes uma ousadia.)]

 

dos facebookers (homens) micareteiros descamisados

 

é preciso tanto desapego, excesso ou umbigo de si mesmo, que subitamente eles me causam interesse, me despertam a atenção para outro tipo de pretensão, que não é impotente, que não é uma ruminação interminável de conceitos. o corpo exposto é, às vezes, o que mais se aproxima da imagem do círculo. resta saber – e a questão ficará aberta, pois não tenho o mínimo interesse em responder – se se trata, de minha parte, de um fascínio invejoso de quem não pode ter essa experiência do círculo umbilical, ou se este tipo de exposição e a potência que ela indica não são limitadas a uma simples exposição (se ela é superficial num sentido pejorativo).

 

ou então – teceira hipótese, com certa dose de esperança – se tudo isso está malposto e o que está em jogo é outra coisa…