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Há coisas nos suicidas que às vezes não somos capazes de perdoar. É o caso do luto que para muitos é impossível superar, e que só se pode, em rigor, atravessar, percorrer, do qual no máximo, e com sorte, podemos pedir: que ao menos nos deixe chegar ao lado de lá de um fosso que não fecha, de uma ausência de sentido que nenhuma psicanálise, psiquiatria ou espiritualidade — nada, nem mesmo nossa inculpação, pode dar sentido.

Aos suicidas não se pode perdoar esse luto que não superamos, porque eles nos colocam frente a frente com a falência do próprio regime da falta e da expiação. O suicídio é algo da ordem do Übermensch, é o além-humano, é o ponto em que o regime de humanidade pifa, ainda que sob o signo da autoaniquilação.

Se o suicida nos mostra que o perdão pode ser impossível, ele também nos lembra que isso só ocorre no ponto em que o significante humanidade se libera de toda significação concreta para se ligar aos significados do que o anulam. Um humano que não pode mais religar-se à sua humanidade, uma humanidade que se liga à sua extinção, a extinção que se liga à redenção, a redenção que se liga ao caos de um buraco-negro.

Essa semiologia do desejo suicida, que é uma tanatologia também, tem uma profundidade trágica, mas tem também uma velocidade quântica. Desmaterializa e é desmaterializada pela impertinência de toda estabilização.

O significante suicídio pode tudo e nada. É nesse modo de existência que o suicida entra e passa a operar.

Não há glória nisso, mas também não há compreensão. A violência dissimulada dos que não se vão com a morte do suicida é não deixar em paz sua memória e a presença anacrônica que este constantemente relança. Sempre há um açoite a perguntar: por quê?

De fato, há formas de acolher o suicida, de restabelecer outra possibilidade de lidar com o peso da própria existência, mas quando tudo falhou, faltou ou não chegou a tempo, já não há mais sentido capaz de dar conta da falta absoluta de sentido. Não apenas entrar no regime do desejo suicida, mas também tentar capturar-lhe num único significado (quando ele é todos e nenhum) é apenas adiar a chance de reconexão com a vida possível. Aquela que podemos perdoar porque ainda podemos redimir.

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o problema não é “fazer sentido”. problema é definir o que é esse “fazer”…

quanto pode um homem defrontar-se com o próprio tédio? obviamente, não se pode apreender o tédio como uma coisa que se pega e se olha de frente. defrontar-se sem desvios ocorre, não obstante, de modo oblíquo. assim: quanto, evitando o desvio e o recalque, pode um homem circundar o próprio tédio, rondá-lo, amá-lo? como pode o homem suportar seu próprio tédio, inquieto e vácuo(, que não permite, pois, perguntas e respostas em eco)?

o tédio parece a via mais insistente à angústia. em termos sonoros, é defasagem gradual: descompasso do homem em relação ao porvir, que se desembesta em mudez.

cumpre determinar ainda se, uma vez que o tédio abre a angústia, pode-se, partindo dele, encontrar a alegria, sustentáculo (ou lida?) da angústia.

de qualquer modo, invarialmente não evitá-lo: amor fati.