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por uma História alegre, mesmo que sem reconciliação, mesmo com tantas lacunas das palavras passíveis de emergirem e as circularidades infinitas de mil cascavéis engolindo-se pelos próprios guizos, mesmo com as errâncias, com os projetos inconclusos – que, não me iludo, permanecem em andamento até que um dia a paz nos assente. alegria, alegria!, mesmo que não seja possível o contentamento, a satisfação. alegria!, alegria sobretudo: alegria para suportar o que, do passado, nos dá possibilidade de porvir.

 

(alegria ignora, aliás, passado, presente e futuro. alegria atravessa o plano da existência em direção ao infinito. é, por isso, horizonte puro, possibilidade de ser mais que subsistência e reminiscência. alegria elocubra as neuroses – e, justamente por isso, é o maior dos riscos.)

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primeiro foi a crença em deus. depois, na gramática. quando pensávamos que o último resquício de teleologia estava na subjetivdade transcendental da fenomenologia, eis que aparece ela, a promessa de liberação, de ateísmo, de razão, enfim, poder, inteiramente comprometida – a linguagem, a necessidade de que a linguagem tenha significado, a crença e a necessidade da crença numa subjacência que aglutine seus pedacinhos num globo translúcido de cristal, tão fantasioso e falsamente real quanto um bibelô simulando um cenário natalino.

 

se a linguagem significar – ai de nós!

estar contigo, potência bruta brotando na carne. independentemente dos finais momentâneos, das intermitências ocasionais: mesmo nossas lacunas são atualizações do infinito.

para tanto, é preciso resistir à melancolia, desacelerador de partículas.

estar contigo, devir contigo: exercício de alegria, ultrapassagem da velocidade da luz.

a cada cessação nossa, o devir reduz-se à velocidade da formação de estalactites. lentidão que prolonga a alegria, mas também abre fendas no tempo, grades de arame esburacadas, farpadas, que não ousamos ultrapassar e que nos assaltam com seus-nossos tédios-melancolias.

 

é preciso perder a espera. é preciso outro afeto, mais elevado, de potência maior, que seja um exercício-forma da alegria: gratidão.

minhas lembranças, trato-as como vitrais, com o esmero com que preservamos as amálgamas delicadas de nossas existências pregressas. predominam sempre as translúcidas plaquetas verdes, azuis e róseas, que são, mantendo seu caráter de transparência, aquelas que mais podem vitrificar cálidas e alegremente frias as lembranças que me alentam. isto me aquece, ma non troppo – eis o sucesso.

 

mas as tuas lembranças, sobretudo a forma de persistência do passado (é uma presença entrecruzada com outras presença?, é uma sequela?, é um signo?, é um acidente, um recalque ou um labor?), como poderia eu, tão acostumado a mim, tão ingenuamente (talvez convenientemente) crente na minha estrita(?) separação entre desejo (presente) e amor (extratemporal), como poderia eu admitir o aldilà que é direito teu (caso ele exista. pois também é direito não velar e zelar memórias privadas, memórias de dois, familiares – depois disso, o trabalho é da comissão da verdade)? e é uma pergunta provocativa, difícil, pois, a mim, exige uma nova metodologia em relação ao passado que não é meu, e que talvez não me toque. mas que eu poderia sentir, que está implícito, e que, de uma forma ou outra, molda a minha presença e o meu presente.

 

está tudo fora de hora e de ordem. agora é tempo de ser presença e presente. é tempo dessa vivacidade fugaz, dessa inquietação, do prazer matinal, da alegria inquieta e dançarina de uma simples – presença. talvez (mais uma dentre várias inquietações e dúvidas) seja esse tom de alegria que deva pautar também o porvir. talvez só haverá porvir enquanto alegria, pois a tristeza não só é peso e caída (existencialistas) ou diminuição de nossa potência (spinoza-nietzsche-deleuze), não é apenas uma verticalidade oceânica. ela, assim como a a alegria, também se desdobra num horizonte, com os lados e a ilusão de profundidade característicos de toda disposição horizontal. mas, diferentemente da alegria, a tristeza é cessação de movimento, de futuro, poça rasa incapaz mesmo dessa ilusão.

 

alegria é, voltemos a ela, o que torna tudo possível. os existencialistas estavam errados, graças a deus. mas podemos agora pedir a conta, ir para casa e dormir em paz? jamais: a alegria exige disciplina, porque não é um afeto, mas uma prática.

 

hoje fiz este exercício para ti. para vós. para o mundo. para mim. e, sobretudo, para ninguém. fiz esse exercício de alegria que é a gratidão absoluta, instransitiva. que é a luz que projeto e atravessa os cristais de memória que velo.

 

eles, na verdade, não me aquecem. eu que me aqueço para suportar com alegria sua permanência louca, improvável e recorrente.

ressurgiu o sentimento de que é bom haver apetite, fome, eventualmente até pequenas gulas, e satisfazê-los.

um conto que escrevi há uns anos tinha a temática simples da morte do milagre. nada de novidade, tanta gente já pisou essa tecla. alguns pomos estão aí e não me deixam mentir.

 

é que hoje vi reaparecer por aí a ideia cristã de milagre. todo cristão poderia ser grego (deus ex machina), mas não sabe que os gregos tinham algo muito mais elevado que a salvação: a catarse.

 

mas o ponto mesmo é: a gente precisa morrer sem o milagre. o milagre é que arrasa com a nossa vida, nós, que não somos homens de bem, moços de família, que não abraçamos a moral, nós, que não sabemos bem o que são ou achamos graça do que dizem serem os bons costumes. nós que temos um mundo pra cuidar, pra pensar, pra construir. nós que estamos tão ocupados em ser que não podemos esperar uma intervenção do além. nós, para quem o além é um sonho açucarado e nebuloso, como um algodão-doce azul e róseo.

 

e se houver mesmo o milagre? (mas essa é uma pergunta cristã, vejam bem.) e se houver mesmo o milagre: estaremos condenados ao acaso.

 

o milagre vai destruir a humanidade. especialmente se ele acontecer e se quiser nos salvar.

 

então, se o milagre vier, a gente samba até morrer. é o único jeito de não virar verme dentro do caixão.

acabou o tempo da mornidão. acabou a tranquilidade forjada, acabou a alísia e macia superfície de pelúcia dos dias encadeados.

só não se sabe ao certo o que começa. mas basta um desvio, um leve descentramento, uma leve flutuação, quaisquer que sejam, para que brote aí uma possibilidade.

“possibilidade!” bradava deleuze para não enlouquecer. eu, menos famoso e mais hiperbólico, mais cartesiano e menos animal, mais polido, melancólico, civilizado, mas também recém-saído da medianidade de um cotidiano perdido, convalescente – eu, homem, digo “possibilidade!” como quem tece um lamento.

basta uma oscilação mínima para o possível vir. enquanto isso, puxo aleatoriamente cartas de um baralho de tarô, apenas pelo prazer de embaralhar tudo novamente e de traçar uma estatística das recorrências: das cartas aparecendo, da minha forma de embaralhá-las e observá-las. (é que, quando vier a possibilidade, quero ter de que me despojar.)

tudo tendo aquela cor monótona da língua romena que dispor de tempo para ver uma palestra parece até uma transgressão da ordem "natural" (leia-se: capitalista) das coisas.

pra que academia se eu perco 2 toneladas na consciência após cada aula bem feita de piano?

(o ensino de piano é, definitivamente, algo ainda muito cristão. a diferença é que a gente já nasce condenado e, na maior parte das vezes, confessar as fraquezas e faltas não redime, salva ou alivia.)